Há histórias que não se apagam. Elas permanecem como luz branda, acesa na memória do tempo, guiando-nos quando os dias parecem apressados demais e os corações, distraídos demais. A narrativa que envolve o Venerável João Luiz Pozzobon, no final de 1952, é uma dessas chamas que seguem iluminando o caminho — especialmente agora, quando vivemos o Tempo do Advento, tempo de espera, delicadeza e gestos que preparam o coração para acolher o Deus que vem.
João Pozzobon visitava uma avó e suas duas netas, que moravam num pequeno ranchinho. Não havia espaço digno para acolher a Imagem Peregrina. Mesmo assim, o amor daquela família falou mais alto. Ao saber da visita da Imagem a avó tomou uma decisão: “Hoje de noite a Mãe de Deus vem para cá. Vamos dormir no curral com os cabritos, para que a Imagem possa ficar no quarto de vocês.”
Era julho. Fazia frio. E ainda assim, aquela mulher ofereceu o pouco que tinha.
Meses depois, pouco antes do Natal, a história chegou aos ouvidos do Sr. João. Ele escutou, deixou-se tocar e, como quem recebe uma faísca divina, perguntou:
– Vamos construir uma capelinha?
A avó respondeu:
– Com que dinheiro? Somos pobres.”
E João replicou com a simplicidade dos que confiam mais em Deus do que nas circunstâncias:
– Também não tenho nada. Mas não existirá capim seco para cobrir a capela?
Capela Azul — “Capela do Abrigo da Mãe”
Localizada na Travessa Alameda Sibipiruna, Vila Nobre da Caridade, no Cerrito, a Capela Azul nasceu da própria história da “Capelinha de Capim”. Entre 10 e 23 de dezembro de 1952, vizinhos, crianças e a família visitada uniram forças para erguer aquele pequeno abrigo, que foi inaugurado no Natal, coberto com capim, único material disponível. Ali também funcionou a Escolinha Vicente Pallotti. Em 1954, recebeu a cor azul — cor do manto de Maria e símbolo do abrigo materno que Pozzobon desejava oferecer às famílias.
Esse gesto revela muito mais que uma obra material. É um ícone de Advento.
Advento é quando abrimos espaço.
Advento é quando damos do pouco.
Advento é quando permitimos que Deus encontre lugar entre nós.
A generosidade daquela avó, que dormiu no curral para que a Mãe de Deus tivesse um quarto, aponta para a manjedoura de Belém: um lugar pobre que se torna morada do Altíssimo.
A prontidão de João Pozzobon, que não tinha recursos, mas tinha fé, recorda-nos que Deus realiza grandes obras justamente no terreno da nossa fraqueza.
A união da comunidade, que ofereceu mãos e capim, ensina que o Reino cresce quando caminhamos juntos, partilhando o que cada um pode dar.
Hoje, diante de um mundo que tantas vezes ergue muros e fecha portas, a missão de Pozzobon volta a ecoar como convite e profecia. Ele nos lembra que:
- O coração é a primeira capelinha onde Maria deseja habitar.
- A solidariedade é o caminho mais curto entre o céu e a terra.
- A missão floresce quando não esperamos “amanhã”: começa hoje, com o que temos.
No Advento, quando a Igreja inteira se prepara para acolher o Menino Deus, a história da “Capelinha de Capim” nos recorda que Jesus sempre chega aonde encontra um pequeno espaço disponível, ainda que humilde, ainda que feito de capim e esperança.
Que esta memória desperte em nós o desejo de construir, também hoje, capelinhas vivas: gestos de bondade, mãos abertas, acolhimento aos feridos, cuidado com os pobres, compromisso com a missão da Mãe de Deus.
Porque toda vez que alguém oferece o pouco que tem, Maria encontra um caminho. E quando Maria encontra um caminho, Cristo nasce de novo.
* Trechos retirados do Livro:
URIBURU, Esteban J. Herói hoje, não amanhã: vida do pobre peregrino e diácono João Luiz Pozzobon (1904-1985). Instituto Secular dos Padres de Schoenstatt, Santa Maria, p. 77.
e do site https://www.joaoluizpozzobon.com.br/portfolio/capelas/






