Vamos olhar para a santidade no caminho vocacional

Por: Larissa Rodrigues

O tempo atual em que vivemos é denominado por muitos como sociedade líquida. Zigmunt Bauman, filósofo e sociólogo polonês refere-se ao tempo atual como um tempo líquido, onde a fluidez dos líquidos e gases, que não ficam presos em formas pré estabelecidas e estão propensos a mudanças, podem ser aplicadas a sociedade, especialmente a geração atual. Individualidade, dificuldade em estabelecer vínculos a longo prazo e olhar o outro apenas pelo que este é capaz de fazer, são algumas das características dessa sociedade líquida.

E nós, católicos coerentes e convictos temos que mostrar que o plano que Deus tem para cada um é ainda maior do que a instabilidade da sociedade. E como mostrar isso? Através da santidade. A santidade não está reservada somente para aqueles que já possuem a honra dos altares ou estão a caminho de adquiri-la, mas a todos os filhos e filhas de Deus.

Hoje, primeira quinta-feira do mês, quando rezamos especialmente pelas vocações para o Movimento Apostólico de Schoenstatt, vamos olhar para a santidade no caminho vocacional!

Para um cristão, não é possível imaginar a própria missão na terra, sem a conceber como um caminho de santidade, porque «esta é, na verdade, a vontade de Deus: a

[nossa] santificação» (1 Ts 4, 3). Cada santo é uma missão; é um projeto do Pai que visa refletir e encarnar, num momento determinado da história, um aspeto do Evangelho.

Esta missão tem o seu sentido pleno em Cristo e só se compreende a partir d’Ele. No fundo, a santidade é viver em união com Ele os mistérios da sua vida; consiste em associar-se duma maneira única e pessoal à morte e ressurreição do Senhor, em morrer e ressuscitar continuamente com Ele.[1]

O caminho vocacional nada mais é do que trilhar, com Cristo, o caminho de Sua Paixão, Morte e Ressurreição, e assim santificar-se a cada dia, rumo a Vida Eterna.

Com tantas coisas que o mundo oferece, está cada vez mais difícil fazer com que o jovem se desperte para o questionamento e discernimento vocacional, afinal, por que deixar tudo para servir a Deus se no mundo ele encontra tudo que o faz feliz? É preciso coragem para arriscar, e a coragem é fruto de um encontro!

Na mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações[2], dia 12 de maio de 2019, o Papa Francisco nos fala justamente da coragem de arriscar pela promessa de Deus:

“Dois pares de irmãos – Simão e André, juntamente com Tiago e João – estão ocupados na sua faina diária de pescadores. Nesta cansativa profissão, aprenderam as leis da natureza, desafiando-as quando os ventos eram contrários e as ondas agitavam os barcos. Em certos dias, a pesca abundante recompensava da árdua fadiga, mas, outras vezes, o trabalho duma noite inteira não bastava para encher as redes e voltava-se para a margem cansados e desiludidos. Estas são as situações comuns da vida, onde cada um de nós se confronta com os desejos que traz no coração, se empenha em atividades que – espera – possam ser frutuosas, se adentra num «mar» de possibilidades sem conta à procura da rota certa capaz de satisfazer a sua sede de felicidade. Às vezes goza-se duma pesca boa, enquanto noutras é preciso armar-se de coragem para governar um barco sacudido pelas ondas, ou lidar com a frustração de estar com as redes vazias.

Como na história de cada vocação, também neste caso acontece um encontro. Jesus vai pelo caminho, vê aqueles pescadores e aproxima-Se… Sucedeu assim com a pessoa que escolhemos para compartilhar a vida no matrimônio, ou quando sentimos o fascínio da vida consagrada: vivemos a surpresa dum encontro e, naquele momento, vislumbramos a promessa duma alegria capaz de saciar a nossa vida. De igual modo naquele dia, junto do lago da Galiléia, Jesus foi ao encontro daqueles pescadores, quebrando a «paralisia da normalidade». E não tardou a fazer-lhes uma promessa: «Farei de vós pescadores de homens» (Mc 1, 17).

Sendo assim, a chamada do Senhor não é uma ingerência de Deus na nossa liberdade; não é uma «jaula» ou um peso que nos é colocado às costas. Pelo contrário, é a iniciativa amorosa com que Deus vem ao nosso encontro e nos convida a entrar num grande projeto, do qual nos quer tornar participantes, apresentando-nos o horizonte dum mar mais amplo e duma pesca superabundante.”

O Papa Francisco, na missa de envio da Jornada Mundial da Juventude, do Panamá, no início desse ano, em sua homilia, proferiu uma palavra muito sábia a respeito da missão do jovem para os dias atuais: “Porque vocês, queridos jovens, não são o futuro, mas o agora de Deus”. Neste contexto, é possível afirmar que o jovem muitas vezes é levado a pensar que o seu ‘agora’ ainda não chegou, que ainda há muito a viver e conquistar, muitos planos e sonhos e que ser jovem é como estar numa ‘sala de espera’.

A única maneira de fazer com que a realidade do ‘agora’ seja palpável e que haja a coragem de arriscar, é através do testemunho daqueles que já arriscaram pelos planos de Deus, que tudo deixaram, assim com os discípulos e seguiram o Mestre!

Ao jovem que tem sede de arder e consumir-se por algo grande, cabe procurar a realização vocacional por meio do encontro pessoal com Cristo e com Maria, pela da oração, e também buscar a espiritualidade e carisma com o qual se identifique, para que assim, seja acompanhado, e a quem já se decidiu por seu caminho vocacional e já está trilhando esse caminho, cabe dar o testemunho de fé e alegria, estar disponível para acolher e acompanhar o jovem vocacionado!

[1] FRANCISCO, Papa. Gaudete et exsultate. Roma: Paulus, 2018

[2] Disponível em Vatican News