Esta foto foi tirada diante da entrada do campo de concentração de Dachau

Durante toda a vida o Pe. Kentenich foi uma pessoa resiliente e, muito especialmente, o foi no campo de concentração

Joana Louzada – Temas como superação e resiliência, estão sendo bastante debatidos, abordados e estudados nos dias atuais. A capacidade de enfrentamento diante de situações adversas e traumáticas, a reconstrução do indivíduo, a força e a coragem de começar cada vez de novo, são algumas das habilidades de alguém, dito, resiliente, numa visão psíquica e social. Ditos populares, como:

“Quem não tem cão, caça com gato”,
“Do limão, fazer uma limonada”,
etc.,

falam dessas habilidades de maneira mais simples. Falam de adaptação, da capacidade de mudanças para algo melhor de um jeito leve, mas que carregam verdades pelas quais precisamos passar no dia a dia.

A resiliência implicaria, então, numa visão psicanalítica, na capacidade do psiquismo em deter aquilo que se apresenta como trauma, despertando novas condições psíquicas de enfrentamento. Nesta situação o sujeito é capaz de apresentar um potencial criador de valor determinante para uma ação transformadora. Por outro lado, a vulnerabilidade tem a ver com uma carência de recursos do eu (ego) aparecendo, desta forma, distorções cognitivas, dificuldade na elaboração de lutos e estilos de enfrentamento inadequados frente às diversas situações traumáticas.

Considerando a construção da estrutura e personalidade de alguém desde os primeiros anos, vê-se claramente a necessidade e a importância dos primeiros afetos, relações, as primeiras construções e referenciais, bem como o ambiente em torno daquele que está sendo formado. Entende-se, aqui, esse ambiente, como tudo aquilo que se apresenta “fora” da pequena criança em desenvolvimento.

Desde a infância…

Pe. José Kentenich tem muito a ensinar a respeito deste tema. Conhecendo sua história mais profundamente é possível perceber como seus primeiros anos de vida não foram fáceis e em sua caminhada apresentam-se situações desafiadoras e traumáticas para uma criança tão pequena. Desde muito cedo foi obrigado a enfrentar momentos de perdas, separações e solidão, porém, também cresceu podendo sustentar-se na certeza de que era muito amado. Mesmo quando precisou realmente separar-se fisicamente de sua mãe, foi tomado de um profundo amor por Maria, que passa a ser a grande educadora de seu coração e a garantia de sua vinculação mais profunda a Deus. A confiança em seus cuidados de Mãe, desde então, se torna o maior alicerce do Pe. José Kentenich para tudo o mais que precisaria enfrentar.

Tudo isso ele conseguiu transformar em caminhos para seu crescimento. Como ele mesmo relata mais tarde: “Se não virem por trás de mim o bom Deus, é evidente que não compreenderão nada” 

[1].

Decisão heroica

Acompanhando a história de Schoenstatt, nós nos deparamos com o 20 de janeiro: segundo marco histórico da Obra, quando contemplamos a decisão heroica e livre do Pai e Fundador de deixar o bom Deus atuar sobre sua vida, ainda que isso lhe custasse a prisão pelo regime nazista e a ida para o campo de concentração.

Novamente o sofrimento passa a acompanhar o Pai e Fundador de Schoenstatt! Mais uma vez Deus o coloca diante da incerteza, do medo, do perigo, da separação e solidão. E novamente a capacidade de enfrentar tal situação se baseia naquela que desde sempre foi o grande esteio da vida do Pe. Kentenich: Maria, Mãe de Deus e sua (nossa) também.

Transformando o inferno em céu

A história mundial conta os horrores do tempo de guerra! Não é segredo e não podem ser escondidas as atrocidades cometidas com os prisioneiros dos diversos campos de concentração. Em meio aos trabalhos forçados, aos castigos, ao perigo de morrer a qualquer instante, à fome, humilhação e todas as barbáries que eram cometidas e expostas aos prisioneiros, Pe. Kentenich foi capaz de “retirar-se” e aproveitar a situação para continuar sua missão de levar o nome de Maria e fazer conhecer o seu poder. Nas situações adversas ele podia falar do amor misericordioso de Deus, falava aos sacerdotes, compôs o livro de orações “Rumo ao Céu”, cativou outros corações para tudo aquilo que ele amava e tinha certeza de ser sua grande missão: anunciar Maria! Sabemos que Institutos de Schoenstatt foram fundados nesse caos.

O inferno que era Dachau tornou-se um céu, um lugar de criação e de comunhão com Deus. Cada pequena situação, uma oportunidade para provar a confiança nos planos e permissões de Deus. Sem dúvidas, humanamente falando, Kentenich foi capaz de suportar esses anos, uma vez já fortalecido por tudo o que desde cedo precisou enfrentar. Seus anos de infância, suas dúvidas de adolescente, suas batalhas internas o tornaram mais forte para esse momento.

Mais uma vez Pe. Kentenich podia sentir-se o filho amado, apesar da situação de abismo, quando tudo indicava o sofrimento e a morte. Sua confiança inabalável na providência de Deus e nos cuidados de Maria eram seus pilares em meio à guerra e a tudo o que ela trouxe. MPHC! (Mater Perfectam Habebit Curam! A Mãe cuidará perfeitamente!)

Para cada um que deseja ser também resiliente, fica um ensinamento que, na verdade, não é nada de novo para aqueles que se encontram com Schoenstatt e querem viver a doação à Mãe de Deus e ao seu Santuário:

Fé prática na Divina Providência!

Cada pequena situação, uma saudação de Deus, um cuidado de Maria. Em tudo procurar enxergar a permissão de Deus. Uma conquista, um desafio, um presente, um sofrimento… procuramos vivenciar a fé que nos indica que o Pai está presente e atua em cada situação. A Aliança de Amor, a entrega ao coração da Mãe de Deus, como um filho confiante, se tornam o segredo, alicerce e fortaleza dos filhos de Schoenstatt, de cada cristão.

“Ficamos nisto, permanecemos FIÉIS!”

 

 

 

[1] SCHLICKMANN, Dorthea M. Os Anos Ocultos – Padre José Kentenich, Infância e Juventude (1885-1910), Sociedade Mãe e Rainha, Santa Maria/RS, 2008. Pág 16

 

Fonte: schoenstatt.org.br