“(…) não é ele o filho do carpinteiro?”

Pe. Francisco José Lemes Gonçalves– No primeiro dia do mês dedicado a Maria Santíssima, é seu esposo que nos leva a um amor esponsal de alma, uma filialidade de Jesus para com esta que Deus a presenteou como esposa. José nos ensinará nestes 31 dias de maio, a como amar Maria, como tê-la como modelo de confiança em Deus, “cegamente e em toda situação”. Se José conseguiu dar largos passos na sua fé foi porque junto com sua esposa rezavam e ouviam Deus e se colocavam inteiramente em comunhão com sua vontade.

José era carpinteiro e Jesus era conhecido pelo apelido de “filho do carpinteiro”. Jesus se orgulhava disso. Não se envergonhou e nem ficou se justificando. Era uma profissão nobre e da qual ele e José ganhavam o pão de cada dia, com o suor deste trabalho. Imagino como eram bem-feitas as peças que ambos faziam na oficina, como elaboravam juntos uma nova peça, como chegavam nas casas com as encomendas prontas e a satisfação de contentamento e o trabalho remunerado. Também imagino que, de vez enquanto, Maria ia até a oficina levar-lhes água, apreciar as novidades e até dar alguns pequenos palpites.

Imagino a alegria neste local de trabalho e como eram recebidas a clientela. Por isso, era bem conhecido como o “filho do carpinteiro”, modelando madeira, lixando, fazendo escolha das que serviam para tal e tal peça; mais tarde este ofício o faria “carpinteiro das almas”.

Hoje a situação do mundo e do trabalho deu uma boa reviravolta como consequência da pandemia. Muitos saíram de suas zonas de conforto e avançar para águas mais profundas de criatividade. Por outro lado, outros sofrem com o desemprego, incertezas e dificuldades financeiras. Entretanto, não podemos nos entregar meios aos obstáculos que surgem ao longo do caminho, assim como fez José, quando teve que levar a sua família para o Egito tendo que recomeçar.

Pai trabalhador

Na carta “Patris Corde”, o Papa Francisco nos fala sobre São José como Pai trabalhador:

Neste nosso tempo em que o trabalho parece ter voltado a constituir uma urgente questão social e o desemprego atinge por vezes níveis impressionantes, mesmo em países onde se experimentou durante várias décadas um certo bem-estar, é necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica e do qual o nosso Santo é patrono e exemplo.

O trabalho torna-se participação na própria obra da salvação, oportunidade para apressar a vinda do Reino, desenvolver as próprias potencialidades e qualidades, colocando-as ao serviço da sociedade e da comunhão; o trabalho torna-se uma oportunidade de realização não só para o próprio trabalhador, mas sobretudo para aquele núcleo originário da sociedade que é a família. Uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperada e desesperadora tentação da dissolução. Como poderemos falar da dignidade humana sem nos empenharmos para que todos, e cada um, tenham a possibilidade dum digno sustento?

A pessoa que trabalha, seja qual for a sua tarefa, colabora com o próprio Deus, torna-se em certa medida criadora do mundo que a rodeia. A crise do nosso tempo, que é económica, social, cultural e espiritual, pode constituir para todos um apelo a redescobrir o valor, a importância e a necessidade do trabalho para dar origem a uma nova «normalidade», em que ninguém seja excluído. O trabalho de São José lembra-nos que o próprio Deus feito homem não desdenhou o trabalho. A perda de trabalho que afeta tantos irmãos e irmãs e tem aumentado nos últimos meses devido à pandemia de Covid-19, deve ser um apelo a revermos as nossas prioridades. Peçamos a São José Operário que encontremos vias onde nos possamos comprometer até se dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa, nenhuma família sem trabalho!

Neste dia o primeiro do mês de sua Esposa, nossa Mãe e Rainha, queremos agradecer pelos que estão empregados e que sejam solidários para com os que passam por dificuldades neste momento. Valorizemos nossos ambientes de trabalho, nossos colegas, quem nos ofereceu a oportunidade de estar no mercado de trabalho, e ao fim do mês, poder levar o pão de cada dia que Deus concede a quem Nele confia!

[1] Acesso em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20201208_patris-corde.html