Somos miseráveis, porém dignos de misericórdia

6 de março de 2016

A nova imagem do filho.

Pássaro nas mãosKaren Bueno – Depois do exílio, a partir de 1965, Pe. Kentenich se dedica a anunciar, com renovada convicção, uma nova imagem de Pai e uma nova imagem de filho.

Para ele, mais do que nunca, Deus se comprova como um Pai de amor misericordioso, que ama a todos indistintamente, não pelos méritos pessoais de cada um, mas porque sua essência é ser amor. Já o ser humano, por sua vez, é um filho de rei e, ao mesmo tempo, um filho miserável, porém digno de misericórdia.

Nesse período a Família de Schoenstatt compreende com mais profundidade e consciência a misericórdia de Deus e como ela deve se portar diante dele.

Vejamos qual é a nova imagem do filho diante de Deus, segundo o Pai e Fundador…

Sua identidade

Pe. Kentenich diz que “a face do filho desperta a face do Pai”.

Segundo o Fundador, cada pessoa deve ver a si própria como um “filho miserável, digno de misericórdia, ou melhor, um filho de rei, miserável e digno de misericórdia”.

Ele escreve à Família de Schoenstatt no Natal de 1965: “No futuro, queremos apelar, mais do que até agora, a dois títulos diante de Deus: à sua misericórdia infinita e à nossa miséria insondável. De bom grado juntamos as mãos e rezamos: Querida Mãe e Rainha Três Vezes Admirável de Schoenstatt, cuida que nos experimentemos como filhos de Rei miseráveis e dignos de misericórdia e, deste modo, passemos pela vida como prediletos do infinito amor misericordioso de Deus Pai”.

Miseráveis por natureza

Pe. Kentenich explica seu conceito: “Miseráveis na medida em que, pelo pecado original e pelos pecados pessoais, experimentamos continuamente nossa miséria”.

O pecado afasta o ser humano da mesa do Pai. Isso fica muito claro na passagem do Filho Pródigo (Lc 15, 1-32), que se distancia de seu lar original e mergulha no mais baixo da miséria humana, tanto física quanto espiritual. Não há como fugir desse “traço de miséria”, pois ele já vem atrelado ao ser humano desde o pecado original, foi o próprio homem que o escolheu por seus atos.

Filhos de rei

A identidade nobre é outro aspecto que não há como retirar do homem, pois ele é filho de Deus, um filho muito amado. Na passagem do Filho Pródigo está também essa característica, como analisa o Pe. Kentenich: “Não se trata apenas de saciar a fome, de elevá-lo ao estado que ele antes tinha, para que ele tenha o que é necessário para a vida, mas, além disso: o pai deu-lhe um anel de ouro, o filho pode usar um anel de ouro. Ou seja, tudo como se nada tivesse acontecido!”.

O Pai e Fundador afirma: “Se caminharmos à luz da fé, se vivermos à luz da fé, se, em nós, se tornarem realidade e continuamente forem realidades para nós as palavras de São Paulo: “Vosso viver seja no céu” (Fil 3,20), será evidente termos um conceito sumamente elevado de nós mesmos e cada vez mais estaremos convencidos de uma elevação de nosso estado: somos filhos de rei, cresceremos na realeza de Jesus, cresceremos na realeza de Deus Pai”.

Dignos de misericórdia

Pe. Kentenich diz tudo isso para transmitir uma mensagem fundamental: “Na medida em que, como filhos de reis, somos miseráveis, experimentamo-nos também como dignos de misericórdia. Ansiamos pela misericórdia e esse anseio de experimentar a misericórdia de Deus Pai obriga igualmente o Pai eterno a derramar sobre nós sua infinita misericórdia”.

Ele mostra que quanto mais insignificante o ser humano se vê diante de Deus, mais o Pai quer estar junto dele. Assim diz: “Orgulho-me de ser miserável. De um lado me causa pena, de um lado me dói a minha limitação, miséria, falhas, pecados; de outro lado, sinto-me orgulhoso disso. Por que me sinto orgulhoso? Por que sou grato e me alegro? Por que tudo isso? Porque a miséria, conhecida e reconhecida pessoalmente, é o título mais seguro para atrair a infinita misericórdia de Deus Pai”.

Contudo, Pe. Kentenich alerta que esse ‘ser digno de misericórdia’ pede o esforço por uma vida nova: “Isso não quer dizer que não devamos ser bons, não devamos fazer o bem, mas que não devo me apoiar em minhas obras. Eu me apoio, em todas as situações, no infinito amor misericordioso do Pai, isto é, num amor que eu não mereci, num amor que eu não mereci na medida em que me foi concedido”.

As palavras do Fundador se fundamentam na Carta de São Paulo: “Quando sou fraco, então é que sou forte (2 Cor 12,10)”. Ele explica: “Quando sou fraco, isto é, quando sinto minhas fraquezas… Eu o experimento principalmente se emprego todas as forças para fazer tudo o que Deus exige de mim por meio das circunstâncias e depois constato fraquezas em toda a parte. Quando sou fraco, quando me sinto fraco, então sou forte. Por que sou forte? É porque então sou quase obrigado pela natureza a unir minha miséria à infinita misericórdia de Deus”.

Referências

Pe. José Kentenich. Abrigado em Deus Pai – Textos escolhidos sobre Deus Pai. Conferências de Roma III.

Carta de Natal de 1965.