São Paulo nos ensina a servir

25 de janeiro de 2016

Palestra do Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, aos primeiros congregados.

sao pauloMotivos suficientes impulsionam-nos a dar mais importância que até agora ao amor fraterno, ao amor ao próximo. Para que nosso jovem coração se inflame por esta rara virtude, a estudaremos mais de perto, com um dos maiores dentre os grandes que passaram pelo palco do mundo. Trata-se de São Paulo, cuja memória celebramos hoje.

Pequeno e débil, de temperamento extremamente revolucionário e rebelde, com seu corpo dolorido e doente, muitas vezes abalado por violentos ataques, terá Paulo sido realmente grande? Amigos e inimigos são unânimes: ninguém, na história, pode igualar-se a Paulo…

Para nós, predispostos como somos à grandeza, é particularmente estimulante penetrar na vida psíquica deste homem. O melhor caminho é analisar seu relacionamento com o próximo. A este podemos aplicar, assim como ao seu estilo, o conhecido ditado francês: (o relacionamento com o próximo) é o homem tal qual ele é, reflete seu modo de ser. Diga-me não somente com quem andas, mas igualmente como tratas os outros, e eu te direi quem és. Vou explicar brevemente a sua atitude e o seu procedimento, para depois expor em síntese as relações humanas do grande Apóstolo universal.

Tornar-se tudo para todos

Meus queridos congregados! Os princípios que determinavam seu procedimento para com os outros permitem reconhecer a atitude de São Paulo. Que princípios eram esses? De que fonte brotavam? Eis duas perguntas que requerem resposta.

Os primeiros princípios a considerar podem ser resumidos nos seguintes termos: servo dos homens. Estas palavras despertam em nós repugnância e rejeição, são conceitos inteiramente opostos ao nosso anelo à autonomia, à liberdade, à autodeterminação.

Mas, por isso não deixa de ser verdade que o grande São Paulo tenha escolhido livremente, conscientemente, a atitude de serviço como norma imutável de sua vida. Na primeira carta aos Coríntios afirma: “Embora eu seja livre e independente de todos, meu próprio senhor, fiz-me servo de todos”. A título de explicação, acrescenta: “Para os judeus fiz-me judeu, para os que estão sob a lei, fiz de conta que estava sob a lei, para os fracos fiz-me fraco. Tornei-me tudo para todos, a fim de salvar alguns a todo o custo, e isso por causa do Evangelho” (cf. 1 Cor 9,10).

Meus queridos congregados! Procurem entender o sentido dessas palavras imortais. Talvez lhes pareçam demasiado flexíveis e condescendentes, desprovidas de princípios, reveladoras de um caráter fraco e desprezível, bom entre os bons e mau entre os maus. Nesse caso, não compreenderam o Apóstolo das Nações, gigante imenso da força de vontade. Eu considero o princípio que acabei de mencionar e de expor como a melhor prova de sua inatacável grandeza. Atribuo a todos vocês suficiente conhecimento do ser humano para confirmarem igualmente essa opinião, quando escutarem que São Paulo quer orientar toda a sua aspiração para a partilha, a atitude serviçal, a situação, a disposição, a sensibilidade e o estado de ânimo de cada pessoa; quer dedicar seus cuidados pastorais e servir cada um segundo suas predisposições, capacidades e necessidades e conquistá-lo, assim, para Cristo.

Por mais que seu temperamento o impelisse a isso, não quer percorrer o mundo como senhor e dominador absoluto, não quer influenciar as pessoas em favor de seus objetivos com ordens ofensivas nem com comportamentos e modos de proceder desafiadores. Um severo autodomínio e a graça de Deus fizeram que nada provocasse mais a sua rejeição do que o espírito que, 1600 anos mais tarde, levou à lamentável cisão da Igreja: o espírito que se manifestou, com orgulhosa exaltação, nas palavras: sic volo, sic jubeo. Assim quero, assim ordeno.

Servir é um constante heroísmo interior

Na medida em que nos exercitarmos em servir, meus queridos congregados, compreenderemos a nobreza de alma e a grandeza que suas palavras refletem, compreenderemos tudo isso. Já experimentamos na pele que servir exige maior medida de energia do que dominar. Servindo, elevamo-nos acima de nós próprios, de todos os instintos e tendências opostos e egoístas. Servir é um constante heroísmo interior. Por isso Jesus diz: quem entre vós quiser ser grande, seja vosso servidor.

Paulo não quer dominar, não quer assumir o papel de um tirano sem piedade. Quer servir, servir na liberdade do amor e não como escravo e bajulador, não como carregador revoltado, não mecanicamente ou por tradição.

Amor serviçal é a justa palavra para expressar sua ideia de servo dos homens, sua exata visão do princípio do amor ao próximo. Ele caracteriza seu amor serviçal para fazer compreender sua missão de servir maternalmente. É a mãe que encarna o princípio do serviço na família. Não está para dominar, mas para servir, para cuidar, para fazer-se útil, para apoiar, para proteger, para curar, para ajudar, para mediar. Seu atuar de mãe é todo ele um serviço de amor e amor serviçal. Ao estabelecer esta comparação, Paulo emprega palavras cálidas, vindas do coração: “Meus filhos, por quem sofro de novo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós” (Gal 4,19), escreve aos Gálatas. Escutemos, ainda, as palavras calorosas que dirige aos Tessalonicenses: “Eu não me apresentei com adulações, como sabeis; nem com secreta ganância, Deus é testemunha. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o Evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos” (1 Tess 2,5.8).

O valor que atribui ao amor é tal, que o descreve com palavras entusiásticas, com vigor retórico e o exalta como lei sagrada e indispensável. “Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, o conhecimento de todos os mistérios e de toda a ciência, ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse a caridade, nada seria” (1 Cor 13,1- 2). Vejam, o “amor serviçal” é o grande princípio do grande Apóstolo, revelador de sua mais profunda atitude interior.

Pe. José Kentenich, Palestra para a Congregação Mariana: Relações fraternas. Espírito e Procedimento de São Paulo, Schoenstatt, 29.6.1914.
Trecho retirado do livro Na Escola do Apóstolo Paulo, textos escolhidos do Pe. José Kentenich. Pe. Peter Wolf (editor). Santa Maria/RS: Sociedade Mãe Rainha, 2008.