Pentecostes: Festa solene da transformação espiritual

15 de maio de 2016

Palavras do Pe. José Kentenich, em alocução às Senhoras de Schoenstatt, no Domingo de Pentecostes (29 de maio de 1966, Santuário de Liebfrauenhoehe/Alemanha):

padresExiste uma lei litúrgica que diz: “Dias de festas litúrgicas não são apenas dias de recordação, mas também dias de renovação”. Hoje celebramos Pentecostes. Se considerarmos e aplicarmos corretamente essa lei, isso significa que nós devemos nos lembrar do grande acontecimento da vinda do Espírito Santo. Devemos lembrar, mas também devemos estar conscientes de que hoje nos é oferecida a mesma graça que então foi concedida aos apóstolos e aos discípulos.

Daí a pergunta: o que aconteceu então em Pentecostes, no Cenáculo? […] resumindo, eu posso dizer: foi a festa solene da transformação espiritual total. Quem foi transformado e como foi transformado? Os apóstolos e os discípulos.

Já que se fala de transformação, naturalmente, em primeiro lugar, nos perguntamos: como eram os apóstolos antes da vinda do Espírito Santo e como se comportaram depois? Involuntariamente sentimo-nos impelidos a refletir como somos agora e como esperamos ser depois que o Espírito Santo também vier a nós […].

Se examinarmos as faculdades, as capacidades espirituais dos apóstolos para termos uma resposta clara à respectiva pergunta, em primeiro lugar devemos perguntar: como era a inteligência, ou melhor, como a luz da fé transformou interiormente a inteligência dos apóstolos e de cada um dos fiéis presentes no Cenáculo?

Eles tinham uma fé muito fraca. Lembremo-nos do que os apóstolos fizeram quando Jesus – a quem eles estavam tão apegados – de um momento para o outro foi preso e maltratado. Eles se safaram. Sua inteligência não captara com suficiente clareza a pessoa do Homem-Deus e por isso também a vontade não teve a força para segui-lo até a morte.

DSC05017

[…] Eles se safaram enquanto as mulheres permaneceram fiéis a Jesus e estavam prontas a dar sua vida por Ele. Realmente uma situação embaraçosa! E esses homens deviam levar a mensagem de Cristo a toda a terra! Deviam estar prontos a dar, mais cedo ou mais tarde, sua vida por Jesus e por sua missão.

E o seu coração? Certamente por um tempo ele ardia. Basta lembrar-nos de uma situação na vida de Jesus. Assim, por exemplo, São Pedro, em nome dos apóstolos respondeu com grande ardor: “A quem iremos, Senhor, se tu nos deixares ou se nós te deixarmos? Tu tens palavras de vida eterna” (cf. Jo 6, 68). Portanto, neles havia realmente o ardor no coração. Mas não era um ardor permanente, um ardor duradouro. Isso nós o sabemos de tudo porque aconteceu depois com Pedro. (…)

O sopro da transformação

Mas depois da vinda do Espírito Santo, como atuou a graça da transformação? Foi uma transformação total, completa. A luz da fé iluminou os apóstolos. Que coragem eles demonstraram! Antes eles vacilaram e tremeram e agora estavam dispostos a morrer por Jesus. Quando eram maltratados ficavam felizes por tornarem-se semelhantes ao seu Senhor. Alegres saiam dos tribunais. Com que ardor do coração, por exemplo, liam ou ouviam o que os apóstolos tinham escrito em suas cartas. Realmente, eram tochas ardendo por Cristo.

O que a Sagrada Escritura nos diz a respeito dos símbolos que exprimem como o Espírito Santo veio sobre os apóstolos, dá-nos uma ideia muito significativa e real de como esta transformação se deu e com que resultado.

O Espírito Santo veio num impetuoso vendaval. O que significa “impetuoso vendaval”? Pensando na vida natural, sabemos que o vendaval varre das árvores tudo o que é falho, tudo o que é frágil. Também nos apóstolos o Espírito Santo afastou toda a mediocridade da qual eles estavam repletos. […]

O Espírito Santo deve vir também sobre nós. Se ele não o fizer, podemos estar certos de que vamos continuar sendo pessoas incompletas, imperfeitas. Tudo o que é medíocre, imperfeito, deve ser varrido de nosso interior, mas não como efeito de nossa própria vontade. Certo, não é para cruzar os braços. Mas, em última análise, é o Espírito Santo com seus dons que deve atuar. (…)

DSC07659

Os dons do Espírito ardem em meu ser

O Espírito Santo desceu sobre os apóstolos na forma de línguas de fogo. Antes disso havia neles muito pouco ardor, no máximo um pouco aqui e ali. Mas quando vinham dificuldades grandes e duradouras, desaparecia o fogo. Fogo! Do fogo sabemos que ele queima. Pensemos no poder de queimar dos dons do Espírito Santo. O que deve ser queimado? Tudo o que é medíocre, o que tem pouca consistência. Línguas de fogo! O fogo também ilumina. O fogo se eleva às alturas. O fogo aquece. Não foi essa também a grande transformação que se deu nos apóstolos depois da vinda do Espírito Santo? Não é esse também o grande anseio do qual também nós estamos sempre interiormente possuídos, de modo especial depois que penetramos mais profundamente em tudo o que é divino, sobrenatural, do além?

Línguas de fogo simbolizam também o dom das línguas. Que dom das línguas? Os apóstolos falaram línguas estrangeiras. Aplicando a nós: também nós gostaríamos de aprender “línguas estrangeiras”. A que línguas estrangeiras nos referimos? É a língua do convívio de amor com Deus Pai, com Jesus e com o Espírito Santo.

Não é verdade? Quando estamos juntos, temos desejos conosco. Também quando de algum modo captamos profundamente grandes contextos, podemos e devemos sempre estar conscientes de que, se o Espírito Santo não vier sobre nós, permaneceremos eternamente imaturos. Se o Espírito Santo não for o principal agente, se ele não nos conceder a graça da transformação, nunca poderemos esperar que a graça da transformação, pela qual ansiamos ardentemente, nos será concedida num grau profundo e elevado.

Fonte: Pe. José Kentenich. Movido pelo Espírito – Textos escolhidos sobre o Espírito Santo. Editora Pallotti, Santa Maria/RS, 1ª edição.