Pe. Kentenich um verdadeiro Pai!

9 de agosto de 2015

Como schoenstattianos podemos seguir suas pegadas223f5c45089313e70dcb5ccbbd44039cPe. Carlos Padilla – O Padre Kentenich não é perfeito. Não vem de uma família ideal, como talvez alguns santos e como talvez desejássemos. Não teve uma família com pai e mãe que se amavam e filhos modelo que se amavam muito. Foi um homem sem raízes, sem vínculos humanos fortes, sem experiências familiares dignas de serem recordadas, sem irmãos. Não teve recordações bonitas de infância, nem fotografias, nem lugares cheios de fantasia. Houve, isso sim, muita solidão, dureza, austeridade, pobreza.

Uma dor que gerou vida

O Pe. Kentenich tinha uma ferida muito forte de desamor e solidão, como são sempre as nossas. Até ao ponto que a ele próprio lhe custava falar disto até ao final da sua vida. Até ao ponto de que em Schoenstatt era um tema tabu. Até esse ponto foi uma ferida profunda, uma ferida enorme, uma debilidade limitadora. Na verdade incapacitou-o para o mais evidente de um homem que é relacionar-se e criar vínculos. Para além disso ficou marcado por uma época onde os vínculos pessoais eram mal vistos.

Uma ferida que o levou a uma falta de união interior tão forte que esteve a ponto de chegar à loucura, essa divisão entre fé e vida, entre o Deus Todo Poderoso e o Deus do seu coração, encarnado, que tinha a ver com ele, entre o humano e o divino, entre as ideias e a vida. Pensando nesse momento, antes de 1912, se fôssemos procurar a pessoa adequada para fundar um Movimento com as características de Schoenstatt, nunca teríamos escolhido o Pe. Kentenich. De fato, a primeira votação para o aceitar para o diaconato foi negativa porque não conheciam o Pe. Kentenich no seu interior.

Deus permitiu que na segunda votação fosse aceito. Deus elegeu o Pe. Kentenich para que dele surgisse um Movimento que pudesse ajudar e dar resposta a muitas das feridas que ele mesmo tinha, um Movimento de vínculos, um lar onde criar raízes. Tantas coisas de que ele tinha falta e justamente Deus utilizou-o para isso. Tal como a renúncia de Catarina Kentenich foi fonte de vida, e a nossa renúncia é fonte de vida, também a nossa ferida pode ser fonte de vida, como foi com o Pe. Kentenich. A ferida do lado aberto de Cristo é fonte de vida.

Quando aceitamos e beijamos a nossa própria ferida, Deus utiliza-a e é fonte de vida. Por aqui passa uma primeira chave para compreender Schoenstatt. Schoenstatt está chamado a fundar-se de novo a partir desta realidade que me parece tão importante. Deus não nega a nossa ferida quando quer dar vida a partir do nosso sim. Não constrói sobre uma alma sem pecado, salvo no caso de Maria. Não, Deus aceita-nos como somos e não se envergonha da nossa ferida. Pelo contrário, serve-se dela.

Pensamos com frequência que Deus ama apenas as nossas virtudes e aproveita só o que fazemos bem, esses talentos que colocou na alma. Se cantamos bem usar-nos-á para conseguir que outros se apaixonem por Ele graças à nossa voz. Se somos gênios na informática usará esse talento tão prático para evangelizar dessa maneira. Mas custa-nos compreender que Deus queira utilizar a nossa limitação, a nossa debilidade, aquela ferida que queremos esquecer, para dar vida em abundância a outros.

A solidão do Pe. Kentenich, que é em si mesma algo de terrível, converte-se na chave para entender como surge Schoenstatt.

Deus usou a sua solidão para o tornar Pai de uma família. Utilizou esse silêncio, essa profundidade da sua vida interior, esse jardim rico, para que aí fecundasse um novo carisma. Utilizou esse barro da sua história, para criar uma obra de arte. A falta de um pai foi fundamental para despertar nele o desejo de dar o que tinha recebido, uma paternidade profunda e autêntica.

A ferida, a ruptura, convertem-se em ponte, em caminho de santidade. Penso que Schoenstatt se funda de novo em nós quando assumimos esta verdade em nós, que sem a nossa ferida Deus não pode dar vida a outros. Porque a ferida converte-se em porta de entrada, para que Deus entre e para que outros se aproximem. Porque a nossa ferida nos faz humildes e mais misericordiosos e faz com que julguemos a realidade a partir da nossa pequenez, e não do orgulho.

Chega de formular ideais pessoais que não são nossos, mas tomados das vidas dos santos, ou criados segundo um ideal que está tão longe de nós, que talvez nunca nos pertença. Ideais que nos rompem por dentro porque nos recordam continuamente a desproporção entre o que ansiamos e o que somos.

Partamos da nossa própria ferida, da nossa vida tal como é, da nossa pequenez que sonha com as alturas. Assim fez o Pe. Kentenich. Entendamos que a partir dessa ferida, desde o mais fundo da nossa dor, dessa história da qual nos envergonhamos muitas vezes, é a partir dela que Deus começa a talhar a verdadeira obra-prima que quer fazer conosco. Essa ferida, da qual nunca nos atrevemos a falar em público, como acontecia com o Pe. Kentenich, é a nossa fonte de vida e o nosso caminho de salvação.

Aceitemos a nossa história, sim podemos chegar a gostar da nossa própria carne, com que Deus fará maravilhas. Pensemos que sim, é possível para Deus fazer coisas impossíveis. Ele pode fazê-lo muito bem a partir da nossa pobreza. Assim fez Deus com Maria, a partir da sua pequenez. Assim voltou sempre a fazer com os santos. Assim fez com o Pe. Kentenich. Viver assim nos fará mais misericordiosos, mais humanos, mais humildes, mais alegres porque não temos que defender-nos de nada. Em Schoenstatt às vezes valorizamos muito os talentos e centramo-nos nas capacidades. O que fala bem, o que tem uma vida maravilhosa, o que escreve de forma incrível, o que dá testemunhos maravilhosos, o que canta como os anjos, o que dirige bem os grupos, o que leu muitos livros de Schoenstatt e sabe expô-los, etc. Atrai-nos a perfeição, não podemos negá-lo.

A originalidade atrativa parece que será mais fecunda e desprezamos o que não sabe tanto, o que não se destaca, o que parece não ter tantos talentos, o que é desajeitado, o que está muito ferido. O Pe. Kentenich na sua vida rodeou-se de pessoas feridas. Creio que fundar Schoenstatt de novo passa por sermos abertos, por construirmos sobre a vida dos que Deus nos confia, com os remadores livres que temos, sem procurar a perfeição inexistente. Consiste em alegrarmo-nos com o barro, mesmo sem ser perfeito, puro e brilhante. Se não o fizermos não estaremos sendo fiéis à origem da nossa história sagrada. Não procuramos a eficiência, não pretendemos que tudo corra bem, sermos uns perfeitos executores de eventos. Não queremos ser seletivos, procurando apenas essas elites que conduzem às massas. Porque esse não foi o caminho que Jesus seguiu na sua vida. Jesus rodeou-se de pecadores e pessoas rejeitadas, feridas, doentes.

Nós sonhamos em ter um coração aberto e misericordioso como o de Cristo. Um coração que olha o homem como Jesus, como Maria, como o Pe. Kentenich.

O Pe. Kentenich chega a esta Aliança de Amor de 1914 com uma grande profundidade.

Há algo de muito bonito, e é parte da nossa herança, que na imperfeição da sua história, Deus ofereceu ao Pe. Kentenich um tesouro, que foi a profundidade da sua alma. O Pe. Kentenich “cavou” a sua alma na solidão. Às vezes isso nos faz falta. Ao aprofundar a sua alma, na solidão, no seu hermetismo, na sua muralha, permitiu, na sua relação com Maria, que surgisse Schoenstatt.

Schoenstatt surgiu na profundidade do coração do Pai antes de ver a luz para os homens, não nasceu a partir de grandes eventos e atividades. Nasce, pelo contrário, no silêncio das profundezas de uma alma, na profundidade de um coração. Se o Pai tivesse permanecido à superfície, não teria havido profundidade suficiente para que surgisse o mundo de Schoenstatt. Há gente que acredita que só é de Schoenstatt porque vai a eventos e participa de atividades. Mas esse Schoenstatt que vivem é superficial e rapidamente pode desaparecer quando surgem contratempos e decepções. Não há profundidade.

Schoenstatt não se enraizou no mais profundo do coração. Somos herdeiros do Pai na medida em que haja profundidade na nossa alma, na medida em que a aliança de amor capte todas as fibras do nosso coração. O mundo de Schoenstatt gerou-se nesse oceano interior do Pe. Kentenich, nesse jardim interior. Assim foi criado. Por isso ele pôde logo ir buscá-lo. Porque já o tinha. Porque já tinha ocorrido nele.

A primeira Aliança de Amor já tinha ocorrido para ele e tinha sido amadurecida com o passar dos anos. Nesses anos difíceis e duros da sua juventude foi criando Schoenstatt no seu coração, e a única coisa que fez depois foi encontrar canais para essa fonte que brotava dele, que estava já nele. Maria curou esse desamor do Pe. Kentenich e o amor que surgiu da cura deu vida a muitos.

A sua paternidade e a sua maternidade.

Schoenstatt nasce de uma paternidade. Deus atuou através da sua paternidade. O Pe. Kentenich começou a “tirar de dentro” o que nunca pensou que tinha. Maria converteu a vida do Pe. Kentenich em fonte de vida para outros. Sem ter tido um pai aprendeu a ser pai, e mãe ao mesmo tempo, quando Deus lhe deu filhos. Assim curou a sua ferida, dando-se entregando-se, morrendo pelos outros. Foi uma paternidade muito humana e muito próxima.

Se necessitamos de alguma coisa em Schoenstatt é de pais e mães, humanos e próximos. Pais e mães que nos projetem e nos mergulhem no coração de Deus. Os rapazes encontravam no pai essa segurança. Acreditavam no Pe. Kentenich, procuravam-no, admiravam-no, amavam-no. Nele encontraram um lugar onde criar raízes. Enraizaram-se nele com o risco que sempre têm os vínculos. O risco da dependência, o risco da decepção, o risco da exclusividade, o risco de que chegasse a ser um apego desordenado. Não importava.

Schoenstatt surge de uma confiança lavrada dia a dia na entrega. Assim curou a sua orfandade, sendo pai. Assim, ao oferecer lar a outros, encontrou ele próprio um lar. De repente, encaixou tudo. A sua ferida fê-lo experimentar o desespero do homem, desses jovens solitários e necessitados. Foi capaz de se pôr no lugar do outro, de compreender, de criar empatias e saber quanta necessidade de segurança há no homem. Foi capaz de oferecer a cada um o que o tinha salvo: o rosto de Maria. Mas foi o vínculo com a sua pessoa o que os levou a Maria.

O laço humano do qual Deus se serviu para os conduzir ao seu coração: “Deus quer atrair-nos com laços humanos. Por isso procura que nos deixemos vincular pelo amor filial, conjugal, paternal. Permite que nos vinculemos a filhos, pais e cônjuges. Mas Deus desfaz esse laço e não descansa enquanto todos não estejam ligados a Ele”. Os vínculos curam-nos e nos enraízam em Deus. Apesar de às vezes nos assustarem, porque temos medo que se desordenem. Quem poderá dizer que todos os seus apegos e vínculos estejam perfeitamente ordenados?! Só Maria. De resto levamos a ferida da solidão na alma. E vinculamo-nos para aprender a amar e para subir sempre mais alto, até Deus.

A paternidade do Pai foi também uma maternidade. Ele foi pai e mãe. Esses rapazes necessitavam de uma mãe. Não lhe bastava um pai que os escutasse e lhes mostrasse amplos horizontes, não, necessitavam de uma mãe que estivesse pendente das suas necessidades quotidianas, do essencial. É por isso que também nós estamos chamados a mostrar a misericórdia dessa paternidade e maternidade no meio dos homens. Somos filhos e pais e mães. Isso torna-nos irmãos. Torna-nos família. Hoje há muitos órfãos com pais e mães vivos. Fundar Schoenstatt de novo passa por aprender a sermos melhores filhos e melhores pais e mães. Passa por sermos lar onde outros possam criar raízes, com o risco que isso pressupõe para ambas as partes.

Schoenstatt é esse lar no qual muitos criarão raízes e poderão respirar uma atmosfera sobrenatural. Não é lar um espaço onde não há uma preocupação pelas necessidades pessoais de cada um, em que apenas nos aceitam se formos úteis e logo nos esquecem, onde nos dão mais atenção quando servimos, quando contribuímos com algo.

Schoenstatt é lar se pudermos ser nós mesmos, se pudermos nos mostrar tal e como somos fora do Santuário, se não tememos a rejeição e não vivemos a competir com os outros, comparando-nos continuamente. Schoenstatt é lar quando qualquer um pode encontrar o seu lar, e pode sentir-se querido, em casa, sem medos. Schoenstatt é lar quando existem mães que acolhem e se preocupam pessoalmente com cada um. Schoenstatt é fiel à sua missão se educamos para que hajam pais que mostrem caminhos e deem segurança. Assim, e só assim, seremos melhores irmãos.

Quando nos sentimos apenas como irmãos, vemo-nos iguais e procuramos ser os primeiros, competir, destacar-nos, ter poder, ser os prediletos, os eleitos, os mais queridos, os únicos que fazem as coisas bem feitas. Competimos por um lugar quase sem nos darmos conta. E assim não se pode construir. Se os irmãos não aprenderem a ser filhos, pais e mães não poderão amadurecer como irmãos. Não se sentirão livres. Não encontrarão o seu lugar. Não terão a paz do que sabe que dá o que pode dar e não o que não tem.

Fonte: santAtibaia

  • Ana Maria Garcia Lamezi

    Que texto lindo e sábio.