Pe. Kentenich mudou minhas expectativas

22 de janeiro de 2015
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Ir. Hans M. Czarkowski conta as experiências com o Fundador de Schoenstatt

“Nós sempre observamos a vida”.

Ir. Nilza P. da Silva/Karen Bueno – Durante a celebração jubilar do centenário da Aliança de Amor em Schoenstatt, a Casa Pe. Kentenich é espaço de testemunhos sobre o Fundador da Obra. Diversas pessoas que conheceram e conviveram com o Pai Fundador contam suas experiências pessoais com ele. Um desses testemunhos é dado por Ir. Hans M. Czarkowski, do Instituto Secular dos Irmãos de Maria de Schoenstatt.

O Irmão de Maria nasceu na Alemanha, porém mora no Brasil há vários anos, em Santa Maria/RS. Como jovem estudante, teve algumas oportunidades de conversa com o Pe. Kentenich, de quem guarda com carinho as lembranças. Acompanhe o seu testemunho de encontros com o Pe. Kentenich, logo após o exílio do Fundador:

Poderia escrever uma detalhada cronologia com todos os meus encontros e reuniões, que poderiam totalizar 20 vezes – alguns como Natal, Semana Santa e o Dia da Família dos Irmãos de Maria. Há também profundas entrevistas pessoais e encontros aqui na Casa José Engling (duas vezes), na casa do noviciado das Irmãs de Maria de Schoenstatt e na Casa Marienau.

Quando agora, depois de quase 50 anos, comunico esses encontros, o faço com uma profunda gratidão ao Pe. Kentenich. Experimentem: Ele está no meio de nós, nos une “Cor unum”. Assim quero falar mais sobre o clima das experiências que me tocaram profunda e interiormente.

O retorno do exílio

(Para a chegada do Pe. Kentenich em Schoenstatt, após 14 anos de exílio) Por horas trabalhamos na sala de recreio da Escola de Maria. Nós – algumas Irmãs e alguns Irmãos de Maria, entre eles também eu –, instalamos cabos, microfones, caixa de som. Tudo funcionou bem e chegou o momento no qual se podia iniciar a cerimônia de seu retorno. Em 1964, não existiam nossos modernos celulares, mas, por telefone fixo, nos comunicaram que o Pe. Kentenich estava prestes a chegar ao lugar do encontro.

A sala estava repleta de schoenstattianos que moravam ao redor do Vale de Schoenstatt – pois, era difícil para as pessoas que moravam longe chegar, porque (era inverno) a ocasião não era tão boa para viagens. Por isso, nos encontramos como circulo interno familiar em Schoenstatt.

A entrada do Pe. Kentenich na sala era de uma tranquila e nobre atmosfera, não de triunfo, mas de solenidade. As Irmãs cantaram: “Filhas de Sião rejubilai…”. Para nós se abriu um horizonte transparente do Reino de Deus. Era um momento altíssimo.

Pelo cuidado com o sistema de som, eu estava muito próximo do palco e pude ver quando o Pe. Kentenich subiu para falar. Pensei comigo mesmo – eu, um estudante de 24 anos, influenciado pela mentalidade crítica dos anos 1968 – que o Fundador criticaria a forma com que a Igreja o tratou.

Todavia, ele começou diferente e surpreendeu-me bastante. Kentenich lembra-se das viagens do Apóstolo São Paulo, onde nas noites no barco, seu pensamento subiu até Deus, como Deus influenciou sua vida apostólica e missionária – muitas vezes de maneira dolorosa. Isso também nós temos experimentado em nossa história.

Então, Kentenich mudou nossas expectativas demasiadamente superficiais e levou-nos a olhar mais profundamente. Isso se notava também na missa da meia-noite, no Santuário Original. Ele estava na entrada da Casa Velha, em uma posição tranquila e com poucas palavras. Ficou ali, sorriu, cumprimentou os membros da Família, desejando Feliz Natal. Deus se mostrou sempre de novo com força na história de Schoenstatt. Nessa noite, Pe. Kentenich me ensinou a ver os contextos de maneira mais profunda.

Kentenich

Com o Pai Fundador entramos criativamente no futuro

Semana da Família dos Irmãos de Maria

No ano seguinte, no verão (europeu) de 1966, foi realizada a Semana da Família dos Irmãos de Maria, com o Pe. Kentenich, em Schoenstatt. As palestras foram dadas na Casa José Engling, que pertence aos Irmãos de Maria, a liturgia era na pequena e antiga casa Marienau e as conversas pessoais, no terraço da Casa José Engling. Ali, Pe. Kentenich ficou hospedado em um quarto, que porventura era muito modesto. Ele, todavia não se queixo, e tomou isso como normal. Nós, jovens, não notamos isso. No final do encontro ele nos estimulou: “Vocês devem construir uma casa grande”.

Depois, combinamos que cada Irmão de Maria teria a oportunidade de conversar pessoalmente com ele. Na primeira conversa, estávamos no terraço da Casa José Engling, era um dia agradável de verão. Eu, um jovem Irmão de Maria e estudante de Psicologia, preparei uma série de perguntas. Mas, Kentenich mudou o rumo da conversa pensada e programada por mim. Ele me perguntou o que penso sobre a relação entre a psicologia atual e de Schoenstatt.

Fiquei muito surpreso com essa pergunta. No fundo era uma das questões que me moveram nesse semestre. Eu pensei um momento e, então, lhe dei a resposta. Como em diferentes assuntos científicos, por exemplo, a psicologia da identidade pessoal e os resultados científicos, coincidem bem com as posições de Schoenstatt. Concordando comigo, o Pe. Kentenich logo disse: “Nós sempre observamos a vida” – olhando a história de Schoenstatt. Abriu assim a perspectiva de um pensar empírico e, certamente, aceitou os seus limites e oportunidades de maneira fundamental.

Neste momento, mal sabia eu que, alguns anos mais tarde, escreveria uma tese de doutorado sobre a Psicologia na Obra de Schoenstatt. Nessa tarde, o Pe. Kentenich mostrou-me uma forma nova de pensar, investigar e aplicar esse pensamento dentro das atividades de Schoenstatt.

Essa pequena frase “Wir haben immer das Leben beobachtet” (“Nós sempre observamos a vida”) se tornou a chave para que eu possa trabalhar com responsabilidade e criatividade. Com isso, Kentenich abriu também, em geral, um pensamento empírico na espiritualidade.

25 anos dos Irmãos e da Obra das Famílias

Na celebração dos 25 anos da fundação da Obra das Famílias e dos Irmãos de Maria, na tarde de 16 de julho de 1942, Pe. Kentenich centralizou o papel do homem. Eu podia comemorar nas fileiras dos Irmãos de Maria e ouvir sua palestra de três horas. Impressionou-me imensamente como ele, em atmosfera quente de verão claro, salientou o homem como pai e como o Irmão de Maria é também pai. O homem só pode amadurecer a si mesmo quando encarna a paternidade no caminho existencial.

Para um jovem de 25 anos isso foi uma auto definição. Havia para mim muitas questões relacionadas com a vocação para a vida celibatária e se abriram novos horizontes de sentido desta existência do homem “puer et pater” (“Pai e Filho”).

Mais tarde, em 1967, eu descobri novas verdades proferidas pelo Pai. Se desenvolveram muitos conceitos refletidos sobre o novo homem, no contexto da discussão de políticas de gênero, com efeito profundo e libertador. Kentenich, neste contexto, aponta a imagem do homem, como jovem, em José Engling e Mario Hiriart, tão jovem e maduro.

Por isso, não foi surpresa que ele nos passasse um sermão antes de sermos Irmãos de Maria: “Devemos ser revolucionários para os homens nas comunidades do Movimento de Schoenstatt”. Foi surpreendente a base que ele passou para mim, durante esses três anos.

Falecimento do Fundador

Na noite anterior ao falecimento de Pe. Kentenich, em 14 de setembro, tive uma conversa com ele, na Casa Marienau. Havia certa pressa, foram feitos alguns telefonemas (sobre o Concílio Vaticano II). Pe. Kentenich me pediu para ficar e ouvi-lo. Desculpou-se dizendo: “Aqui há um mundo inteiro”.

Em 15 de setembro de 1968, estávamos na capela dos Irmãos, com o Pe. Alexandre Menningen (considerado braço direito do Pe. Kentenich), para a celebração da Santa Missa. Durante a celebração, Pe. Menningen foi chamado. A reflexão que ele nos dava foi interrompida e, logo depois, soubemos que o Pai havia falecido após a sua primeira Missa na Igreja da Adoração, ele havia morrido repentinamente.

Nós ficamos juntos na capela para uma oração espontânea. Havia tristeza e consternação. Depois de algum tempo, Pe. Menningen voltou e confirmou o falecimento do Pe. Kentenich. Um grande silêncio. A Missa foi celebrada e todo o programa foi alterado. À noite, fomos ao velório e prometemos fidelidade à Obra de Schoenstatt.

Pe. Menningen salientou que o Pai, imortalizado, estaria sempre conosco, em seu espírito, para apoiar o trabalho da MTA no futuro. Nosso lema naquele ano era: “Com o Pai Fundador entramos criativamente no futuro”.

Tradução (original em alemão): Douglas Henrique Moreira Araújo