Pe. Kentenich ensina o caminho da filialidade para o Advento

28 de novembro de 2015

Conferência do Pe. José Kentenich à Família de Schoenstatt de Aschaffenburg/Alemanha – 28 de novembro de 1937:

natalTodos nós, cada um a seu modo, estamos predispostos às vivências do ano litúrgico com seus momentos altos e baixos. Aprofundando-nos nele, logo sentimos que nossos pensamentos e sentimentos, tudo o que queremos e almejamos encontra ressonância no ano litúrgico. Ora é tempo de alegria, ora de profunda tristeza ou de anseio imenso. No Advento a Igreja quer lembrar-nos de que a verdadeira santidade consiste em ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo.

Se pesquisarmos a história da Família de Schoenstatt, encontraremos já no início, em 1919, as palavras: “Nesta situação de caos, elaboramos um programa que é a expressão de nosso empenho por uma solene conquista da vida interior”.

Não conheço comunidade alguma que tome tão radicalmente a sério sua aspiração neste sentido. Nós, como Família, permanecemos fiéis a este princípio e aspiramos com seriedade ao aprofundamento da vida interior, da vida com Deus, em Deus e para Deus. Mas isto não é fácil! Todos nós experimentamos muitas vezes as fortes vacilações de nossa vida interior. Pensemos, por exemplo, em nosso corpo: quantas tempestades tem ele de enfrentar! Quase poderíamos comparar com as variedades de clima do mês de abril. E se nosso corpo passa por tudo isto, quanto mais podemos falar das inúmeras disposições da alma. Hoje, por exemplo, estamos vibrando de entusiasmo. E amanhã?!… É isto que a Igreja quer recordar-nos no tempo do Advento. É como se nos quisesse dizer: todos os que aspiram seriamente no sentido religioso devem também ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo. Precisamos adquirir conceitos claros em relação à vida interior.

Encontrando-se em seu leito de morte, disse São Francisco de Assis: “Deixem-nos, finalmente, começar!” Deveríamos nós também sintonizar nossa vida com este pensamento. Esta coragem de recomeçar inclui o profundo anseio por um fim sumamente elevado. E tão grande fim a Igreja o coloca de maneira brilhante perante os nossos olhos, nas próximas semanas, no tempo do Advento. Ele corre como as águas de um rio caudaloso, em direção ao Natal. Conheceis o que disseram os anjos aos pastores? “Encontrareis uma criança…” (Lc 2,12). Estas palavras nos apontam um grande fim, um grande objetivo para as próximas semanas: uma nova filiação!

Deus se fez homem, nascendo como criança. E nós devemos tornar-nos divinizados pelo caminho do renascimento espiritual e não somente nas quatro semanas do Advento, mas até o fim de nossa vida. Jesus coloca diante de nós, como objetivo de vida: “Se não vos transformardes e não vos tornardes como as criancinhas…” (Mt 18,3). Que, então, exige Ele de nós? Um novo nascimento! […] Se, no Advento, Jesus exige que nos tornemos crianças no sentido do mistério do Natal, não significa que devemos tornar-nos infantis, criançolas diante das pessoas, mas que perante Deus sejamos verdadeiras crianças, semelhantes a Jesus no presépio.

[…]

Vista no grau superior, filialidade é dedicação desinteressada de si mesmo, como Jesus no-la previveu. Toda a sua vida foi caracterizada pela atitude filial: o que agrada ao Pai, e não o que agrada a mim… A vontade do Pai é para o Filho a medida de todas as coisas (cf Jo 8, 29). Ao ouvirmos tais considerações acerbas, a palavra “filialidade” recebe novo colorido, perde o aspecto de moleza, de falta de vigor e penetra numa acerbidade vigorosa.

Quanto mais nos abrimos para Deus e as coisas divinas, tanto mais nos fechamos para o mundo. Somente quem é criança consegue estar no meio do mundo e viver desprendido do espírito mundano. Quem pode dedicar um amor profundo, o amor filial, por exemplo, em seu relacionamento com alguma pessoa, aos poucos vai dar-se conta que, embora vivendo todos os dias no mesmo local, não está vivendo naquele ambiente — sua alma vive no amor. Portanto, o cerne, a estrela que guia toda a nossa aspiração deveria ser: estar no mundo, mas não ser do mundo; servir ao mundo, porém, com o coração e os sentidos girar em torno de Deus Pai: “Se não vos tornardes como as crianças…” Que exige Jesus com estas palavras? Um renascimento! Tornar-se criança!

Pe. Kentenich dá algumas dicas para estar mais próximo de Deus, como um ser filial, neste Advento:

1º — Aprender a amar:
Aproveitar os exercícios ordinários de oração, como escola de amor. Depende do bom Deus se aprendemos a amar. E se amamos, somos capazes de vencer a situação do tempo. Certamente todos nós também queremos saber muito; mas, saber muito, para amar.
Que exercícios posso incluir no meu Horário Espiritual? Precisamos fazer exigências a nós mesmos! Não devemos somente incluir as orações comuns, de costume. Isto não basta. É preciso ir tão longe quanto possível. Porém, de maneira razoável, sensata! O mundo de hoje se afasta do bom Deus. Por isso é bom incluir no Horário Espiritual um breve tempo diário para cultivar a oração interior. As orações comuns não são suficientes para ninguém que vive no mundo.

2º — Dedicar tempo para Deus:
Em segundo lugar, devemos fixar tempos exclusivos para o bom Deus. Que tempos poderíamos reservar para isto? Em casa não viveis sozinhos, por isso precisais ser engenhosos para conseguir retirar-vos diariamente ao menos por cinco ou dez minutos para o cultivo da oração interior, para estar exclusivamente com o bom Deus. Senão, fazemos grandes palestras, entusiasmamo-nos por grandes ideias, mas o coração está muito pouco compenetrado do bom Deus. Fixar um tempo de oração aos domingos ou durante a semana! Quanto tempo o mundo, hoje, exige para si! O homem moderno está em contínua agitação, está sempre a caminho. E preciso que haja uma reação contrária. A luta contra Deus está no auge. Precisamos, pois, educar-nos para, com mais ardor, elevá-lo ao trono de nosso coração. Devemos dedicar tempo a Deus! Nós dois nos pertencemos mutuamente. Eu te pertenço e Tu podes fazer comigo o que quiseres.

3º — Proteger-se do espírito mundano:
O tempo atual assemelha-se a uma fábrica. Ali a fumaça é tanta que compenetra a roupa das pessoas. O mesmo acontece com a poluição que há no mundo. Ela penetra na alma. E minha missão de vida é ser um sinal, uma indicação a Deus! Se não nos esforçarmos para estar muitas vezes, também no correr do dia, em santa solidão com o bom Deus, podemos ouvir quantos sermões quisermos, mas eles não nos atingirão em profundidade.

Vejamos uma imagem: com chuva, andamos de bicicleta, sem guarda-chuva, mas com capa de chuva. Ao retirarmos a capa, percebemos que nossa roupa permaneceu enxuta; a chuva não a atingiu. O mesmo acontece hoje em dia, com os sermões. Isto porque à palavra deve seguir a ação. Como posso aproveitar esses poucos minutos de solidão com Deus? Como escola para aprender a amar. É uma arte difícil de ser aplicada, mas precisamos tentar.

Nos primeiros tempos do cristianismo, os cristãos viviam dispersos pelo mundo. Depois, muitos concluíram que era muito perigoso viver no mundo e sentiram a necessidade de formar ilhas de vida cristã. Assim surgiram as Comunidades das Ordens. Nós também pensamos de modo semelhante, só que não nos sentimos chamados à vida comunitária, mas procuramos manter relações uns com os outros. Procuramos formar ilhas, onde reina a atmosfera de Deus. E para consegui-lo esforçamo-nos por passar o nosso dia junto com o bom Deus.

Devemos dar especial importância ao primeiro e ao último minuto do dia. Antes de dormir, observar o grande silêncio. Guardar o silêncio exterior, para estar interiormente com Deus. Será que posso fazê-lo, embora não viva sozinho? No tempo atual isto poderá tornar-se muito difícil. Porém, uns minutos antes de adormecer, procuremos ocupar-nos um pouco de maneira afetiva e agradável, com pensamentos religiosos, por exemplo, sobre a filialidade. Por que é isto de tão grande importância? Quais são nossos primeiros pensamentos, ao acordar, e qual a sua importância? Um barril conserva o odor do primeiro líquido nele colocado. O mesmo vale também para mim. Quais são meus primeiros pensamentos, ao acordar? Geralmente os mesmos com os quais adormeci. Isto porque durante a noite o subconsciente continua a atuar na alma. Um pensamento saboreado com interesse, à noite, continua a atuar durante o sono e, pela manhã, ao acordar, é o primeiro que surge na consciência. Que devemos, então, fazer? Dar grande importância aos últimos e aos primeiros momentos do dia.

É costume na Família fazer o sinal da cruz, ao despertar. Porém, devo fazê-lo com alma. Coloco-me, assim, sob a proteção do Crucificado. Quem cultiva intensa vida interior, também tem oportunidade, aqui, de renovar sua consciência de batismo: sou cristão, sou batizado, sou filho do Pai Celestial! Depois, deveríamos recordar nosso Ideal Pessoal.

O que daremos ao Senhor?

É de extraordinária importância que introduzamos tais costumes na vida. Pergunto-me também: que farei hoje para trilhar o meu caminho neste sentido? Lanço um olhar ao dia e peço a Deus e à Mãe de Deus que me ajudem. […]

[…] aconselho que procuremos estar muitas vezes singelamente junto ao bom Deus, como o fazem os filhos do povo. Perguntai-vos a vós mesmos: quando é que minha alma se sente mais atraída a Deus? Não há, durante o dia, tempos nos quais minha alma sente grande fome de Deus? Responda cada um para si a esta pergunta. Dependendo de nossa profissão, o encontro com Deus poderá ser, por exemplo, através de passeios pelo campo, à tardinha, quando estamos cansados. O momento oportuno é diferente para cada pessoa […].

Seria grande coisa se pudéssemos concluir, através disto, o quanto o bom Deus nos ama. E em resposta: “quero presentear-lhe minha vida”.

Texto do Pe. José Kentenich
Livro: O objetivo de vida do autêntico cristão