O Ano da Misericórdia e a acolhida aos refugiados

27 de abril de 2016

Schoenstatt em saída.

papaGrazielle Coutinho/Karen Bueno – A Liga Feminina e o ramo dos Profissionais (Liga dos Homens) do Movimento Apostólico de Schoenstatt de Curitiba/PR querem viver mais intensamente a cultura do encontro – que é a cultura da Aliança – e realizar as obras de misericórdia no Ano Santo. Para isso organizam uma palestra sobre a imigração que ocorre atualmente ao Brasil, com Pe. Agler Cherizier, assessor da Pastoral do Imigrante na Arquidiocese de Curitiba.

O encontro acontece no Santuário Tabor Magnificat no último domingo, 24 de abril. O tema é “Convivência Social”, sobre a acolhida aos refugiados estrangeiros que chegam ao país. Pe. Agler pertence à Congregação dos Padres Scalabrinianos e é natural do Haiti, ele compartilha suas experiências na Pastoral e dá dicas para colaborar com os imigrantes.

O dirigente dos Profissionais, Elder Semprebon, ressalta a importância do assunto e o agir missionário. A dirigente da Lafs em Curitiba, Scheyla Furlan, resume e compartilha o conteúdo apresentado na palestra:

Vivemos uma mudança de época. Vemos que em quase todas as cidades do Brasil há imigrantes. Com o tempo, o país deixou de ser uma terra exclusiva de índios. Com a chegada dos italianos, dos alemães, dos poloneses, aos poucos o país se tornou uma terra de várias nações, línguas e culturas. Transformou-se em um país rico na diversidade.

Porém, temos convivência nessa diversidade? Como podemos viver em comunidade com culturas tão plurais? Isso realmente não é fácil! Será que cada povo fica fechado em seu orgulho, em sua pretensa superioridade? Será possível viver em comunhão face às gritantes diferenças?

Hoje, com a imigração dos haitianos ao Brasil, constatamos que seus rostos são muito diferentes, por exemplo, dos italianos, mas podem ser facilmente confundidos com os africanos, através de um olhar desatento. Faz-se necessário perguntar a origem de cada qual, pois são histórias e identidades diferentes. Afinal, cada povo pensa de uma forma, se expressa única e singularmente. Assim, temos que “morrer um pouco” para irmos ao encontro do diferente. O diferente também precisa agir assim, para a cultura do encontro nascer.

Interculturalidade

pe agler

Pe. Agler é assessor da Pastoral do Imigrante na Arquidiocese de Curitiba

Isso significa, para quem está chegando, uma inculturação, ou seja, entrar na cultura nova. Ainda, para quem está acolhendo, o processo é de aculturação, tem que se aculturar, esquecer um pouco sua própria cultura, para facilitar esse encontro.

Desta forma, é possível a interculturalidade. A convivência multicultural sem grandes choques ou brigas acontece por meio do entendimento de linguagens novas, do desprendimento e disponibilidade de ambas as partes. O tratamento deve excluir a percepção enquanto imigrante, mas exclusivamente respeitar a pessoa humana no próximo acolhido.

Dar o melhor de si

Na Pastoral do Imigrante, podemos observar que várias pessoas que fazem doações, ao mesmo tempo fazem uma limpeza de sua própria casa. Muitas transferem coisas velhas e já sem utilidade, achando que o imigrante não tem nada, então qualquer coisa serve. Não precisamos estar nesse nível. Temos que doar o melhor.

Isso facilita o diálogo, a acolhida, a confiança, pois se você está me doando coisas ruins, eu também responderei de forma ruim. Há que se ter o cuidado para que a imigração não se torne uma corrente de guerra, algo negativo. Se acolhemos bem, há crescimento, uma fonte de riqueza, frutos positivos. Citando o caso de italianos, de alemães, foi dado um espaço acolhedor e houve desenvolvimento, trouxeram o trabalho e cultivo da terra, novos valores, isso enriquece o país.

Deus trino, sinal da pluralidade

O Brasil é o país que é agora porque teve um coração para acolher a diversidade e ainda acolhe. Entretanto, politicamente é necessário estruturar melhor esta acolhida para facilitar, promover a dignidade do diferente que está chegando.

Nosso Deus não é um Deus de uniformidade ou unicidade. É um Deus uno e trino. Deus não existe sem o Pai, sem o Filho e sem o Espírito Santo. Faz-se Deus através de três pessoas diferentes.

O elo com o diferente está na ausência de julgamentos. Atualmente, a Igreja vê o imigrante como filho de Deus e deve favorecer o diálogo inter-religioso. O respeito às diversas religiões deve existir. A linguagem deve ser de inclusão. Nesse sentido, o trabalho da Pastoral dos Imigrantes se reflete como um grande coração que acolhe, uma voz de esperança e também um ouvido que escuta.

Na cidade de Curitiba, conforme histórico da Pastoral desde o ano 2000, encontramos aproximadamente 13 mil imigrantes. No caso de haitianos são aproximadamente 5 mil. Ainda, de 2014 até hoje, um total de 33 sírios, latinos 153, africanos 85. Destes últimos, a maioria vai para o Rio de Janeiro/RJ.

Como podemos acolher?

Verifica-se que o convite brasileiro para os imigrantes foi feito, contudo não há um projeto político efetivo que atenda às necessidades básicas da pessoa humana. Esse trabalho é desenvolvido por meio de voluntariado.

Mas de que forma nós, cristãos, poderemos amenizar essa realidade difícil? Como cidadãos comuns, devemos acolhê-los com um sorriso, com pequenos gestos de amor, da forma que nosso coração achar melhor, como irmãos. É a época de vivermos, de fato, a cultura do encontro que o Papa Francisco nos pede. É um trabalho de todos nós que sentimos a necessidade de ajudar.