Solidariedade

Padre Nicolás Schwizer

Dar o coração

Todos nós conhecemos a frase bíblica: “Os asseguro que cada vez que o fizestes com um destes, meus humildes irmãos, comigo o fizestes...”

Ao escutá-la, é como se nos víssemos despachados do céu a terra, do espiritualismo a encarnação. A surpresa é profunda e geral. Os justos tanto como os condenados protestam: “Quando te vimos...?”

Jesus nos avisa de antemão que não seremos julgados por nossas práticas religiosas: não nos perguntarão se rezamos, se profetizamos, se assistimos a palestras, retiros ou reuniões religiosas. O juízo final não se baseará na quantidade de nossas comunhões, de nossas missas dominicais, de nossas confissões. Toda essa intimidade aparente com Jesus não nos impedirá de sermos postos à porta do Reino. Não seremos interrogados sobre o que fizemos frente a Deus, mas sobre o que fizemos frente aos demais.

Aqui, Cristo identifica-se plenamente com os pequenos, pobres e humildes. Neles, Deus está ao nosso alcance, para que possamos amá-lo e servi-lo. “Quando o fizeram com um destes meus irmãos, a mim o fizeram”.

Ele está ali, ao nosso lado, com mil rostos distintos. Mas nós, cegos, duros, egoístas e negligentes, não sabemos vê-lo, pior ainda, não queremos vê-lo. Deixamos que Ele vá, talvez, até o depreciamos. Provocamos sua justiça com nossa injustiça e falta de solidariedade. “Cada vez que não o fizeram com um destes meus irmãos, a mim não o fizeram”.

Se a solidariedade fraterna é a única garantia para entrar em seu Reino, então não temos outro caminho que buscar o rosto de Cristo no rosto de nossos irmãos que sofrem. E quando o descobrimos, temos que acolhê-los e, ajudá-los como o faríamos com o próprio Jesus.

E assim, nenhum cristão pode permanecer tranquilo, enquanto houver crianças que não tem que comer, jovens sem possibilidade de se instruir, adultos que carecem de trabalho, anciãos passando os últimos anos de sua vida em uma resignada desesperança.

Em cada um destes rostos se reflete nosso Senhor. Porque em cada um destes irmãos necessitados é Deus que sai ao nosso encontro.

O autêntico amor se manifesta e realiza quando é capaz de se traduzir em solidariedade. Porque o amor é uma força de união, uma tendência a considerar o outro como parte de meu próprio ser, como meu verdadeiro irmão em Cristo.

Por isso, amar é compartilhar: sentir minhas as alegrias, as esperanças, as angústias e as necessidades do outro. E fazê-lo sentir que também o meu coração, meu tempo, meu pão está a sua disposição. Nisto consiste a solidariedade. E neste tempo difícil que estamos vivendo, é necessário que nós sejamos solidários com os irmãos necessitados. Além disso, é o único sinal pelo qual os homens poderão nos reconhecer como discípulos de Cristo e instrumentos do Espírito Divino.

Pois o pior não é certamente o mal que cometemos, mas, o bem que deixamos de fazer. Há um grupo numeroso de gente que “não rouba, nem mata, nem faz mal a ninguém”. Mas tampouco faz o bem.

Esconder-se na vida privada, refugiar-se na multidão, lavar as mãos diante dos gritos dos mais pobres e oprimidos - é tornar-se cúmplice e também responsável da injustiça. Mas, todos serão descobertos e condenados quando chegar o dia das responsabilidades. Todos serão despojados de sua paz e de sua segurança burguesas, naquele dia terrível. Porque Deus virá como um ladrão que não anuncia nem o dia nem à hora de sua visita.

Queridos irmãos, renovemos por isso não só nosso amor ao Senhor, mas também nossa entrega generosa aos irmãos, principalmente a nossos irmãos pobres, desamparados e marginalizados. E então nos esperará, ao final de nossa vida, o convite do Juiz divino: “Vinde vós, benditos de meu Pai; herdai o reino preparado para vós desde a criação do mundo!”

Perguntas para a reflexão

1. O que faço pelos mais pobres?

2. A religião é um refúgio para mim?

3. Considero-me uma pessoa solidária?

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