Necessitamos de um período de deserto

14 de fevereiro de 2016

1º Domingo da Quaresma.

cruzPe. Carlos Padilla – O tempo da Quaresma, esses quarenta dias de deserto, são uma oportunidade para crescer. Paramos, olhamos nossas vidas e sonhamos em crescer, em ser mais, em pertencer por inteiro a Deus. Olhamos a esse Deus que nos salva e vem a nosso encontro. Neste primeiro domingo recordamos a aliança de Deus selada com o homem. É um pacto que muda nossa vida para sempre. Deus se rebaixa para elevar-nos, Deus se faz pequeno para que possamos abraçá-lo, Deus vem a nós em uma história de fidelidade.

Assim escutamos na leitura, em que recordamos a aliança de Deus com Noé e sua descendência: “Eis que vou estabelecer minha aliança convosco e com vossa descendência, com todos os seres vivos que estão convosco: aves, animais domésticos e selvagens, enfim, com todos os animais da terra, que saíram convosco da arca. Estabeleço convosco a minha aliança: nenhuma criatura será mais exterminada pelas águas do dilúvio, e não haverá mais dilúvio para devastar a terra. E Deus disse: Este é o sinal da aliança que coloco entre mim e vós, e todos os seres vivos que estão convosco, por todas as gerações futuras. Ponho meu arco nas nuvens como sinal de aliança entre mim e a terra. Quando eu reunir as nuvens sobre a terra, aparecerá meu arco nas nuvens. Então eu me lembrarei de minha aliança convosco e com todas as espécies de seres vivos. E não tornará mais a haver dilúvio que faça perecer nas suas águas toda criatura” (Gênesis 9, 8-15). A aliança de Deus com o homem o salva, o levanta do pó, muda sua vida. Mostra-lhe seu amor e esse amor o anima a caminhar.

Dizia o Pe. Kentenich: “Aprenda dos santos. Somente quando se souberam amados extraordinariamente por Deus, começaram a andar pelos caminhos da santidade heroica”. Por isso o homem não pode esquecer-se dessa aliança, porque é a expressão mais cálida do amor de Deus por nós. Não pode esquecer-se que foi salvo das águas para sempre. Se acaso se esquece, Deus se manifesta em um arco sobre o céu para recordá-lo. A Quaresma é o tempo em que Deus quer recordar-nos o quanto nos ama. Sua aliança segue viva em seu coração, mesmo que às vezes nós nos esqueçamos. Por isso hoje elevamos nosso olhar ao alto, olhamos ao Deus de nossa história e renovamos nosso ‘sim’ ao nosso Pai.

A fé: um dom de Deus

O tempo que começamos é um tempo de graças, o tempo em que a conversão é um dom de Deus. Diz o Evangelho: “Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Marcos 1, 12-15). Recebemos as cinzas e com elas escutamos essas palavras: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. Queremos crer mais. Outro dia escutávamos o que dizia o pai de um filho possuído pelo demônio a Jesus: “Tenho fé, mas duvido, ajuda-me”. Jesus só lhe diz o que sempre fala em seus atos e palavras: “Se posso? Tudo é possível para quem tem fé” (Marcos 9, 14-29).

A fé é o dom que pedimos cada dia. A fé para confiar na presença de Deus, que nos conduz e transforma. Queremos acreditar com toda esperança e confiar além de nossas forças. A fé nos anima a crer no que não vemos e avançar sem perder a confiança. Os sonhos que vivem na alma nos afastam de nosso conformismo e nos permitem fazer realidade o que outro dia eu lia: “Uma existência sem sonhos é uma semente sem solo, uma planta sem nutrientes. Os sonhos dão força e te ajudam a entender que não há crescimento sem tempestades, períodos de dificuldades e incompreensões”. É o contato próximo com nosso Pai que buscamos no deserto. Fugimos à solidão para viver em comunhão. Somo criativos para buscar momentos e ocasiões para poder descansar e deixar nossa vida em suas mãos.

Sacrifício que consagra

O tempo da Quaresma é um tempo para o sacrifício. Às vezes nos assusta o uso dessa palavra. Sacrificar, sacrificar-se, nos parece um verbo obsoleto. O mundo parece já não crer na importância do sacrifício. Pedem-nos hoje para sacrificar-nos, renunciando a comida, deixando de comer carne às sextas-feiras, justo quando parece mais apetitosa. Convidam-nos a sacrificar nosso sonho para orar mais e ser mais generoso dando esmola. É como se o sacrifício fosse contra nosso desejo mais forte de sermos felizes. O significado real da palavra “sacrificar” é “fazer sagrado”. Passar as coisas ao terreno do sagrado e colocá-las sobre o homem.

Quando nos sacrificamos, quando sacrificamos nossas vontades, fazemos sagrada essa entrega. Quando sacrificamos nosso tempo dando-lhe aos que o necessitam, fazemos sagrada nossa generosidade. Sacrificar-se deixa de ter, então, um sentido meramente limitador, para ter um significado maior. Porque desde o momento em que o entregamos a Deus, já não nos pertence. Quando nos sacrificamos no tempo da Quaresma, o estamos fazendo por amor a Deus. Estamos buscando, desde nossa pequenez, que nossa vida seja mais santa, porque passa a ser propriedade de Deus. Ao fazer sacrifícios, de alguma forma, estamos nos consagrando a Deus e entregando-lhe tudo que temos.

Por outro lado, o jejum que nos é pedido não somente se refere a deixar de comer e renunciar aos prazeres de cada dia. Não se trata apenas daquelas coisas que nos atam, de coisas que não são más em si mesmas. Quão importante é jejuar de outras coisas, como das críticas, do ciúme, da inveja e das comparações! Quanta felicidade damos a outros deixando de fazer aquilo que não edifica nem constrói. Hoje se pede o jejum do que envenena os outros, de nossos comentários fora de hora, de nossos maus pensamentos que nos afastam das pessoas. Convida-se ao jejum de tudo aquilo que não constrói, de atitudes que são negativas ante a vida, de ciúmes e apegos doentios.

A solidão é necessária

A imagem que nos acompanha durante a Quaresma é a imagem do deserto: “Naquele tempo, Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”. Necessitamos voltar sempre ao deserto para encontrar o Deus de nossa vida. Dizia uma máxima dos eremitas do deserto: “Senta-te em tua cela, doma tua língua e teu estomago e te salvarás”. No deserto aprendemos escutar a Deus.

Que importante é aprender a amar a solidão, neste mundo que não nos deixa estar sós. Como dizia o Pe. Kentenich: “Entendemos os quarenta dias no deserto. Compreendemos seu pedido: ‘Quando orares entra em vosso quarto e fecha a porta, ore em segredo ao vosso Pai’. Compreendemos a importância de seu pedido aos discípulos quando regressavam de esforçadas atividades apostólicas: ‘Vinde, retiremo-nos a um lugar deserto, e descansa um pouco’”. A solidão é necessária, ainda que nos sintamos incapazes de buscar lugares e momentos para estarmos a sós com nós mesmos. Mas esse anseio já nos faz crescer em nosso interior. Dizia Santa Teresa de Jesus: “Orar não é outra coisa que tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama”.

É tempo para cultivar em solidão a amizade com quem nos busca, com esse Deus pessoal que nos quer e não nos deixa nunca. É um contato próximo e íntimo. Às vezes somos demasiado formais no contato com Deus. Pe. Kentenich dizia: “Tem que falar com Deus de maneira original e autêntica, cada um com suas próprias palavras. Deveríamos aprender a dialogar com simplicidade. Falemos frequentemente com Deus, mas não com a boca, com o coração ”. Nossa oração deve ser um descansar a cabeça no peito de Jesus. É aprender a confiar em seus planos sem medo, entregando-nos com paz.

Firmes na fé

Mas o deserto também é o lugar das tentações. Ali Jesus foi tentado pelo demônio. O deserto, imagem dos extremos, é o lugar em que Deus e o demônio habitam. Disse São João Crisóstomo: “Ainda que Deus permita que as tentações sejam muitas e de variadas maneiras, as permite também para que saibamos que o homem tentado se constitui o mais honrado, pois não se dirige o diabo senão àquele que vê em grande elevação”. As tentações são mais fortes quanto mais queremos servir a Cristo e seguir seus passos. Quando buscamos a Deus no deserto, encontramos a tentação que nos convida a conformarmo-nos, a nos entregarmos por inteiro e nos quer fazer desistir de nossos grandes propósitos.

A tentação nos sugere seguir como estamos, sem mudanças. O demônio a semeia no coração. Mas nós, ante as tentações, nos sentimos seguros porque Deus vai conosco e porque já lhe entregamos tudo. Ante as tentações, entregamos o coração a Deus, nos colocamos totalmente em suas mãos e confiamos em seu amor.

Texto retirado da homilia do dia 26 de fevereiro de 2012, disponível no site padrecarlospadilla.com