Karl Leisner: Paixão heroica por Cristo

27 de fevereiro de 2015

Centenário de nosso primeiro beato.

leisnerKaren Bueno – “Deus honra o pai nos filhos”, diz o livro do Eclesiástico (3, 3). Este texto bíblico se refere à família humana, explicando como deve ser e agir para se tornar santa. Porém, a frase se encaixa perfeitamente aos filhos de Schoenstatt e sua relação paterno-filial com o Pai Fundador, Pe. José Kentenich.

A Aliança de Amor foi vivida tão intensamente por alguns, que seus nomes se destacam no Movimento, e em alguns casos alcançam o reconhecimento da Igreja como exemplos. A santificação dos filhos reflete a santidade do Pai – mesmo que ainda em processo de estudo pela Igreja. Dos beatos de Schoenstatt, Pe. Karl Leisner é o primeiro.

O Padre alemão nasceu no dia 28 de fevereiro de 1915 em Rees/Alemanha, assim, no próximo sábado celebra-se o seu centenário. É com grande alegria e gratidão que a Família de Schoenstatt dá graças ao Bom Pai pela vida desse heroi, que deixou-se educar por Maria e teve Cristo como seu amor maior.

Aos 18 anos, em 1933, Karl Leisner vai pela primeira vez a Schoenstatt e no ano seguinte inicia os estudos de Teologia no seminário de Münster. Nessa época, torna-se dirigente da Juventude Masculina de Schoenstatt na diocese e deseja tornar-se sacerdote.

Uma liderança que representa perigo

Karl Leisner é uma liderança forte entre os jovens. Sua personalidade livre e autêntica incomoda o governo nazista, que o vê como um incomodo, um empecilho na difusão de suas ideologias entre a juventude. Ele vive e propaga a pedagogia de Schoenstatt, que prega a liberdade interior e o crescimento orgânico, o que vai contra as propostas de Hitler – os nazistas buscam formar homens-massa, que não pensam por si próprios.

Por ser essa liderança marcante que desafia o governo, em 1939 é obrigado a servir no exército de Hitler. É nessa época que contrai tuberculose, e os maus tratos e péssimas condições de serviço agravam a situação.

Mesmo doente, Karl Leisner é enviado para o campo de concentração de Dachau – o mesmo que o Pe. Kentenich ficou preso – e lá convive com outros sacerdotes schoenstattianos e segue com a vida de Aliança de Amor.

Já com a saúde bastante debilitada, tem seu grande desejo atendido em 1944, quando é ordenado sacerdote em Dachau. O jornalista francês Guillaume Zeller, que pesquisou a vida dos sacerdotes neste campo de concentração e recentemente publicou um livro sobre o assunto, afirma que “em Dachau teve lugar a primeira – e única na história da Igreja – ordenação sacerdotal clandestina de um seminarista alemão a ponto de morrer”. Ele se refere ao Pe. Leisner, que recebeu o sacramento da Ordem dentro de uma barraca colocada como capela, pelas mãos do bispo de Clermont-Ferrand/França, Dom Gabriel Piguet, e também com a presença do Pai Fundador de Schoenstatt.

Logo após o Natal, no dia 26 de dezembro, Pe. Karl Leisner celebra sua primeira e única Santa Missa.

Leisner1944Fiel até o fim

No começo de 1945, o sacerdote de Schoenstatt já não tem mais condições físicas de sobreviver no campo de concentração. Por isso, é libertado no dia 4 de maio – os nazistas têm medo que ele morra na prisão e seja proclamado heroi pela juventude.

Pe. Leisner passa suas últimas semanas no Hospital de Planegg, em Munique, e já não tem mais condições de recuperar a saúde. O espírito de sacrifício e amor a Cristo é vivido em todas essas etapas de sofrimento que experimentou, até o último dia de sua vida terrena, 12 de agosto de 1945. A última frase de seu diário expressa a magnanimidade de sua alma: “Abençoai, oh Senhor, também os meus inimigos!”

Reconhecido pela Igreja

Em 23 de junho de 1996, com o Estádio Olímpico de Berlim lotado, o então Papa João Paulo II beatifica Pe. Karl Leisner. Na ocasião, o Santo Padre retoma a vida do heroi de Schoenstatt:

“‘Cristo, tu me chamas, eu digo, humilde e decidido: Eis-me aqui, envia-me’, escreve Karl Leisner no início de seus estudos teológicos. Pressentindo, desde o início, o caráter anticristão do partido então no poder, ele sentiu-se chamado para ensinar aos homens, através do serviço sacerdotal tão desejado, o caminho de Deus. […] Antes de ser preso em Dachau, ele se tornou o apóstolo de uma profunda devoção a Maria, à qual foi estimulada pelo Pe. Kentenich e o Movimento de Schoenstatt[1]”.

Leisner é apontado pelo Papa como um exemplo de amor e contato pessoal com Cristo. Assim afirmou São João Paulo II:

“Cristo é a Vida: esta era a convicção para a qual Karl Leisner viveu e para a qual ele finalmente morreu. Ao longo de sua vida, ele procurou a proximidade com Cristo na oração, leitura diária da Bíblia e meditação. Finalmente encontrou essa proximidade de modo particular no encontro eucarístico com o Senhor. O Sacrifício eucarístico, que Karl Leisner pôde celebrar depois de sua ordenação sacerdotal no campo de concentração de Dachau, não foi para ele apenas um encontro com o Senhor e com a fonte da força de sua vida. Karl Leisner sabia antes que aquele que vive com Cristo, entra com o Senhor numa comunhão de destinos[2]”.

Também o Papa Bento XVI, em visita à Alemanha no dia 22 de setembro de 2011, celebrou uma Santa Missa no Estádio Olímpico de Berlim. Logo no início da homilia recordou o Pe. Karl Leisner: “Pensando nestes Beatos (Bernhard Lichtenberg e Karl Leisner) e em toda a série dos Santos e Beatos, podemos compreender o que significa viver como ramos da videira verdadeira, que é Cristo, e dar muito fruto[3]”.

A frase do Pe. José Kentenich “Mater habebit curam”, que marcou a vida de Pe. Karl Leisner revelando sua confiança na Mãe de Deus, é dita durante sua beatificação. Com essas palavras, São João Paulo II envia a todos os presentes na cerimônia:

“‘Mater habebit curam’, a Mãe celeste vai cuidar! Com estas palavras de alegre esperança de Karl Leisner, confio-vos à intercessão de Maria, que, como primeira cristã, disse sim à vontade de Deus[4]”.

Pe. Karl Leisner é uma personalidade forte, que marca a história de Schoenstatt e segue como modelo para todos os irmãos na Aliança de Amor. Seu exemplo de amor a Cristo e à Maria encontra eco nos corações, já que foi grande influência para uma geração e continua a influenciar os que conhecem sua história, intercedendo por todos lá do céu.

Referências

[1] SÃO JOÃO PAULO II, Homilia no Estádio Olímpico de Berlim, 23 de junho de 1996.

[2] Idem

[3] PAPA BENTO XVI, Homilia no Estádio Olímpico de Berlim, 22 de setembro de 2011.

[4] SÃO JOÃO PAULO II, Homilia no Estádio Olímpico de Berlim, 23 de junho de 1996.