Exílio: época de sacrifício e de esperança

10 de agosto de 2015

Ir. M. Fernanda Balan conta suas lembranças.DSC05337

Karen Bueno – O período do Exílio do Pe. José Kentenich (1951-1965) representa um tempo de grandes graças, mas também de duras provas para a Família Internacional de Schoenstatt no mundo todo. Ao mesmo tempo em que a história narra os desafios e as dificuldades desta época, ela revela como esse período enriqueceu e uniu os filhos de Schoenstatt, no mundo inteiro, em um único objetivo: libertar o Pai e Fundador das amarras que lhe foram impostas e empenhar-se pelo carisma de Schoenstatt para a Igreja.

No Brasil os desafios não foram diferentes. Além das incompreensões e reservas da parte de algumas autoridades da Igreja, os dois Santuários de Schoenstatt – o de Santa Maria/RS e de Londrina/PR – sofreram muito com a retirada Santíssimo Sacramento do seu tabernáculo por um tempo prolongado. O Movimento Apostólico de Schoenstatt foi duramente provado pelas proibições nas dioceses e paróquias.

Ir. M. Fernanda Balan acompanhou de perto a situação do Movimento de Schoenstatt nessa época. Ela fez parte da Juventude Feminina de Schoenstatt, em Londrina, no período do Exílio e conheceu as dificuldades daqueles que não entendiam a Obra do Pe. José Kentenich. “Quando eu entrei no Movimento, não havia uma boa reputação a respeito da Obra de Schoenstatt na publicidade. No Brasil, o Movimento estava implantado em várias cidades do Paraná e do Rio Grande do Sul. Havia muitas suspeitas. Até minha mãe ficou um tanto surpresa quando comecei a participar do Movimento e que me decidi para ser Irmã de Maria de Schoenstatt, pelas coisas negativas que ouvia”.

Ir. M. Fernanda era aluna do Colégio Mãe de Deus, onde conheceu a espiritualidade de Schoenstatt e o Santuário. Ela recorda que não podia falar que pertencia à Juventude Feminina de Schoenstatt: “Nós nos chamávamos de ‘Juventude Nova’, porque não podia se falar em ‘Juventude de Schoenstatt’. Por meio das Irmãs, nós conhecemos a personalidade e a espiritualidade do Fundador. Elas tinham tanto amor à causa de Schoenstatt e, apesar das lutas e sofrimentos, eram muito alegres e demonstravam ardor pela missão. Isso se irradiava e era transmitido a nós, alunas do Colégio, nos retiros e encontros que participávamos nos dias de Carnaval ou feriados. Inclusive interpretávamos peças teatrais, fazíamos passeios e exercíamos também apostolado, como catequistas e dirigentes de grupos da juventude. Algo belo e surpreendente que percebi desde jovem foi a descoberta que para se ter uma experiência filial com o Fundador e participar do seu carisma não era preciso estar fisicamente ao lado dele, mas usufruir das experiências e do testemunho de outros que o conheceram e o entenderam em sua missão e carisma profético”.

Às vezes, diante das divergências e circunstâncias delicadas que se criaram, surgia a questão: Por que fazer parte desta espiritualidade e carisma? O que levava os jovens, as mães e as famílias a frequentarem o Santuário e se empenhar pela missão do Pe. Kentenich? Para Ir. M. Fernanda Balan, a resposta está na riqueza e originalidade da pedagogia: “O método que trabalhavam conosco era o mesmo que o Pai e Fundador usou com os seminaristas, em vista de educar o ‘novo homem e a nova comunidade para a renovação religiosa e moral do mundo’. Sabíamos que Schoenstatt oferecia uma espiritualidade de autoconhecimento, do ideal pessoal e comunitário. Tais objetivos nos davam grandes estímulos para colaborar nesta missão, pois nós nos chamávamos ‘Juventude Nova’. A vida dos congregados heróis, sobretudo a de José Engling, servia e oferecia impulsos e nos atraia a selarmos a Aliança de Amor e a doar nossa vida por uma grande Obra”.

Um Movimento que oferece uma formação pessoal e comunitária, integrando-a com Deus por meio de Maria era algo totalmente novo: “Em Londrina, na década de 1950, não existiam grupos de jovens nas paróquias, havia apenas as Filhas de Maria ou os Congregados Marianos, que iam à Igreja, tinham reuniões, mas não uma formação de personalidade em dimensão psicopedagógico e integrada com a dimensão religiosa assim como acontecia com os grupos do Movimento. A Juventude Nova abriu um novo panorama, que era o estudo do autoconhecimento, da personalidade, a busca pelo sentido da vida, qual é a sua missão e ideal pessoal. Isso era uma novidade fora de série para nós! ”.

Família em Aliança

Em 1960, Ir. M. Fernanda ingressou no Instituto Secular das Irmãs de Maria de Schoenstatt, mudando-se para Santa Maria/RS, que era a sede da única Província brasileira na época. “Em Santa Maria havia um bom núcleo do Movimento, que sofreu também ‘cortes’ na propagação do apostolado original de Schoenstatt”.

Contudo, o período do Exílio não trouxe apenas dor e sofrimento, mas também belas e profundas vivências: “Nós experimentamos tempos muito dolorosos, mas também de muitas esperanças. Em Santa Maria ficava nossa sede provincial, como Irmãs de Maria. Por isso uma ou outra vez recebíamos visitas de várias pessoas que haviam se encontrado com o Fundador nos Estados Unidos e traziam notícias ‘fresquinhas’ e fotos do nosso Pai exilado e de suas atividades como pároco da comunidade alemã de Milwaukee. Era tão belo e consolador ouvir sobre as suas atividades com as famílias. Experimentávamos um profundo ambiente de amor fraterno e solidariedade entre todos nós, seus filhos. Ao mesmo tempo que este era um período de duras provações, foi também um tempo lindo, muito intenso de vinculação com o Fundador. Crescia o desejo forte de até doar a nossa vida para libertar nosso Pai e a sua Obra do exílio”.

Um período também de vitórias

Os 14 anos de Exílio comprovaram que a fundação de Schoenstatt é uma Obra do Espírito Santo, uma oferta de Deus, um novo carisma para a Igreja. “A grandeza que eu vejo nesse período é o cultivo da fé na Aliança de Amor e o triunfo da fidelidade, tanto do Fundador como de seus filhos. Intensificou-se a valorização da vida de oração, das contribuições ao Capital de Graças e a manutenção da ‘confiança cega e filial’, conforme rezamos na oração do ‘Confio’”, destaca Ir. M. Fernanda Balan. Outro aspecto que ela ressalta é o contato próximo dos schoenstattianos com algumas autoridades da Igreja, que conheciam o Pe. Kentenich e queriam também colaborar no empenho para libertar o Fundador. Muito ajudou para isso o fato da realização do Concílio Vaticano II, justamente nessa época, isto é, de 1962 a 1965.

No Brasil, surpreendente foi, conforme Ir. M. Fernanda, o crescimento e a divulgação da Campanha da Mãe Peregrina de Schoenstatt: “Durante o Exílio, o Sr. João Pozzobon foi o único que conseguiu trabalhar ‘livremente’ na Diocese de Santa Maria. Ele levava a Mãe e Rainha de Schoenstatt, a Mãe Peregrina, para tantos lugares, famílias, escolas etc. Ia até além das fronteiras nacionais. Ele ‘teve a graça de entender a origem’ tinha uma vinculação muito profunda com o Fundador. Rezava muito, oferecia sacrifícios heroicos pela Obra de Schoenstatt e o seu Fundador exilado”.

O Sr. Pozzobon conseguiu a autorização do Bispo diocesano para prosseguir com sua Campanha. Mas ele não era o único que batalhava pela Obra. Toda a Família de Schoenstatt se empenhava nas “catacumbas” pela missão e pelo carisma do Pe. Kentenich. Nessa época, Ir. M. Fernanda era assessora da Juventude Feminina: “Tínhamos que trabalhar meio que de forma clandestina com as jovens”. A fidelidade de todos esses filhos de Schoenstatt, de diversas idades e vocações permitiu à Mãe e Rainha Três Vezes Admirável conquistar o Brasil e fazer deste País o Tabor de suas glórias.

“Sim, louvado e bendito seja Deus, nosso Pai de infinito amor e misericórdia, que nos imergiu profundamente na cruz gloriosa de Cristo e, em Maria, nos enriqueceu com o carisma da Aliança de Amor, na força e na paz do Espírito Santo”, conclui Ir. M. Fernanda.