Em Dachau contemplamos a misericórdia

20 de janeiro de 2016

“Misericordiosos como o Pai”.

dachauKaren Bueno – Neste Ano Santo o Papa Francisco convoca todos os cristãos a criarem uma cultura de misericórdia onde quer que estejam, tanto por meios físicos quanto espirituais. Pela Aliança de Amor a Família de Schoenstatt é convidada a colocar-se na vanguarda deste tempo santo, já que a grande mensagem do Pe. Kentenich, após seus duros anos de exílio em Milwaukee/EUA, aponta Deus como Pai infinitamente misericordioso.

Como se sabe, o Fundador não pede nada a seus filhos que ele mesmo não tenha vivido e experimentado primeiro. As atitudes de misericórdia podem ser vistas em toda sua vida, mas profundamente nos momentos de sofrimento, como no exílio e no campo de concentração de Dachau/Alemanha. Pelos testemunhos daqueles que conviveram com Pai na prisão nazista, percebe-se, na prática, o que é misericórdia e como ela pode ser vivida nas situações mais adversas.

Um sacerdote polonês escreve: “Quando foi permitida a entrada de pacotes no campo, ele (Pe. Kentenich) sempre presenteava aos mais pobres algo do que havia recebido. Os franceses eram os mais pobres… Eles beijavam a mão do Senhor Padre, em sinal de gratidão por tudo o que dele recebiam. Ninguém era tão grande, tão santo; ninguém era tão fiel como o Pe. Kentenich… Ele dava sempre a metade de sua pequena porção de pão ao sacerdote que com ele partilhava o mesmo armário. Para nós, a porção de pão que recebíamos nunca era suficiente… Nesse tempo de grande fome, alguns até se esqueciam da cortesia mais primitiva, mas o Senhor Padre nunca se esqueceu da cultura humana”.

Modelo de santidade

Mesmo antes de ser levado para Dachau, quando estava preso no Bunker (uma pequena cela, sem ventilação) onde passou vários dias, Pe. Kentenich realizava, da maneira que podia, atos de misericórdia. Cantava bem alto, sem parar, várias músicas para animar outros prisioneiros que se lamentavam nas celas vizinhas.

A preocupação com uma base espiritual sólida para os sacerdotes sempre acompanhou o Pai e Fundador. Em seu livro, o jornalista francês Guillaume Zeller narra que Dachau recebeu mais de 2.500 padres prisioneiros durante a Segunda Guerra Mundial, sendo o “maior cemitério de sacerdotes católicos no mundo”.

Sem perda de tempo, Pe. Kentenich começou a trabalhar em favor desses religiosos, dando conferências espirituais para animá-los na fé. “Devemos sincera gratidão ao Pe. Kentenich – recorda Hans Cari, Diretor da Caritas em Wuppertal/Alemanha – já que pela noite, fosse na rua do Bloco ou mais tarde no canto da sala de dormir, dava-nos pontos de meditação. Por muito tempo foi o único estímulo espiritual que recebemos”. Outro ato de misericórdia que realizava era distribuir secretamente, entre os seus coirmãos, a Sagrada Comunhão que lhe traziam às escondidas.

Em sua criatividade e audácia, também pela confiança que conquistava entre as autoridades do Campo, o Pai e Fundador conseguiu evitar que alguns companheiros de prisão fossem levados para as câmaras de extermínio, caso do conhecido professor de Teologia da Universidade de Lovaina na Bélgica, o jesuíta Pe. Léon de Coninck. Quando, certa vez, apesar de seus esforços não conseguiu livrar da morte um companheiro, rompeu em pranto, como narra um prisioneiro.

O que tiramos disso?

O lema do Ano Santo, “Misericordiosos como o Pai”, pede que imitemos o Bom Deu nessa virtude. E como schoenstattianos, temos a graça de enxergar em nosso Pai um exemplo prático de como viver a misericórdia por meio da Aliança de Amor. A guerra atual é diferente, Dachau tem outro rosto, mas pede igualmente uma atitude de misericórdia frente a tantos horrores que nos cercam.

De todos os “atos de misericórdia” apresentados pelo Pe. Kentenich, talvez o maior deles seja ter dado sua vida, sua liberdade, correndo risco de morte, para conquistar a liberdade espiritual de sua Família de Schoenstatt. Assim, o Pai espera de seus filhos também atitudes de misericórdia e, profundamente, que se valorize e se viva a liberdade interior tão duramente conquistada.

“O espírito de Dachau é o espírito do perfeito arraigamento no mundo e na realidade sobrenatural. Este é o sentido mais profundo de nossa vida. Todos os demais arraigamentos são passageiros. Daqui a Mãe de Deus deve interceder, continuamente, para que todos os filhos de Schoenstatt tenham esse espírito de Dachau” (Pe. Kentenich 16 de julho de 1967).

Fonte de pesquisa: Novena Livre em Algemas, Irmãs de Maria de Schoenstatt / Padre Kentenich como nós o conhecemos, Ir. M. Annette Nailis.