Como Jesus, ser filho também no sofrimento

25 de março de 2016

Reflexão do Pe. José Kentenich, dirigida às famílias, em 23 de julho de 1956:

pai-kentenichEm geral, hoje esquecemos facilmente que não podemos levar uma vida cristã sem sofrer. […] Ante o gigantesco sofrimento e a cruz que, todavia, ainda existem eles dizem: é um estado passageiro. Empenhamos a vida para que os que vierem depois de nós não encontrem sofrimento e cruz aqui na terra.

A opinião pública em geral rejeita o sofrimento e a cruz. Nós, porém, não podemos esquecer que a tarefa de vida do cristão consiste, essencialmente e em grande parte, também no sofrimento e na cruz. Todas as pessoas e todas as famílias carregam sobre os ombros uma grande medida de cruz e de sofrimento.

Com Jesus aconteceu o mesmo. Ele sofreu, sofreu muito. Sabemos que redimiu o mundo pela sua cruz e paixão, mas, antes de tudo, pela sua morte. A grande questão é o modo como carregou a cruz e o sofrimento. Creio dever dar duas respostas. Primeiro: com uma atitude muito humana! Ou seja, mostrou que a cruz e o sofrimento lhe causavam dor. Não se comportou como um estoico, manifestou sentimentos verdadeiramente humanos.

[…] Como procedeu Jesus? Em favor de todos nós, passou uma hora de sofrimento tremendamente dura no Jardim das Oliveiras. Como sabemos, seu sofrimento interior era tal que não suou simplesmente, mas até suou sangue, embora fosse um homem na flor da idade. Não assumiu o papel de homem forte, desmoronou.

Perguntemo-nos o que o fez desmoronar, também fisicamente. A Sagrada Escritura diz explicitamente que dobrou os joelhos e se vergou. Qual era o seu sofrimento interior? Sua natureza divina retraiu-se, de certa forma, a fim de que a natureza humana sentisse até ao extremo o sofrimento. Pode ser que tenha imaginado o que o esperava, que seria flagelado, crucificado, maltratado. Por vezes a cruz e o sofrimento pesam mais quando estamos diante deles do que quando nos atingem realmente.

É provável que tudo isto o tivesse oprimido. Porém, muito mais dolorosa era a consciência de toda a podridão que perpassa os séculos. Ele assumiu a podridão do pecado e a experimentou como se tivesse sido ele a cometer todos os pecados. Foi por isso que seus joelhos se dobraram e que suou sangue. Numa atitude muito humana, aproximou-se dos apóstolos, buscando um pouco de consolo. É tudo muito humano, porém como encontra os apóstolos? Eles dormem, não se interessam por ele.

Então, Jesus retira-se e volta-se novamente para o Pai. Vejam que atitude humana: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice”. Não pensem que se tenha dirigido apenas duas ou três vezes ao Pai. A Sagrada Escritura deixa perceber que foi um longo processo, que lutou com o Pai e repetiu muitas vezes: Afasta de mim este cálice! Vejam o grito humano e filial que dirige ao Pai. Porém, logo a seguir expressa sua atitude fundamental com as soberanas palavras: “Contudo, não a minha vontade, mas a sua seja feita!”. Compreendem? Em toda situação, toda a vida de Jesus girava em torno do Pai.

Foi este o exemplo que Jesus deu a sua Mãe. Compreendemos que ela se tenha tomado, em Jesus e com Jesus, uma filha singular do Pai, que também girasse sempre em torno do Pai, em todas as situações da vida. Conhecem as belas palavras que aprendemos com Ir. M. Emílie Engel: Queremos tomar lugar no vagão Providentia do trem da filialidade, no qual ressoa continuamente o lema: “Ita Pater, ita Mater” (Sim Pai, sim Mãe).

[…]

Com tudo isso, pretendo mostrar-lhes o seguinte: não esqueçam que pode ser imensamente difícil dizer sim a Deus Pai. Precisamos aplicar essa realidade à nossa vida. Se queremos tornar-nos filhos do Pai não podemos pensar que o bom Deus brinca conosco. Creio que devo traçar algumas linhas para a nossa vida a partir daqui. Já perguntamos várias vezes o que acontece na nossa vida. Giramos em torno do Pai, por exemplo, enquanto trabalhamos? Giramos em torno do Pai enquanto rezamos? Giramos em torno do Pai quando sofremos? Estes são os três elementos da nossa tarefa de vida, que precisamos relacionar normalmente com o Pai.

Fonte:
Pe. José Kentenich. Às segundas-feiras ao anoitecer – Diálogos com famílias. Volume III. Sociedade Mãe e Rainha, Santa Maria/RS: 2010. 1ª edição.
Capítulo: 23 de julho de 1956 – O verdadeiro filho e a verdadeira filha do Pai no sofrimento.