Autênticos e misericordiosos como o Pai

13 de março de 2016

misericordia porta santaHomilia do Pe. Carlos Padilla, assessor do Movimento Apostólico de Schoenstatt na Espanha, em 17 de março de 2013, V domingo da Quaresma:

“Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo no solo”. Comove-me esse diálogo sem palavras, esse silêncio que estremece o coração. Uma mulher acusada, seus acusadores que buscam justiça: “Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”. A justiça, sempre queremos justiça. Queremos que aquele que age mal seja castigado e que quem se comporta adequadamente receba seu prêmio. É o justo. Por isso a pergunta nos coloca ante um momento muito delicado. De suas palavras derivam a salvação ou a condenação. Joga-se tudo em uma resposta, a vida ou a morte. Todos esperam que Jesus rompa seu silêncio, querem condenar a ela por seus pecados e a ele por suas palavras. Entretanto, Jesus escreve na terra e guarda silêncio.

É a tentação da espera. Em nossa vida somos impacientes, queremos ver Deus atuando em cada momento, sem pausas, sem silêncios. Aflige-nos pensar em um Deus que guarde silêncio e não atue. Incomodam-nos suas palavras silenciosas, porque não sentimos, não o escutamos, está como que ausente. Para nós, dói a indiferença de Deus, o mesmo que nos dói a indiferença dos homens.

Qual seria nossa resposta?

Algumas vezes nos vemos em dilemas parecidos. Temos que julgar uma situação em um ambiente hostil, no trabalho, ou entre os amigos. Esperam nossa resposta. Talvez nem demos importância, mas pode ser que nossas palavras e nossos silêncios marquem o caminho daquele que nos escuta. Damos muita importância à nossa fama, ao que os demais pensam, não queremos dizer o que acontece e calamos. Nosso silêncio acaba nos condenando.

Sabemos que se damos testemunho de nossa fé, nos tratarão com certo desdém, nos depreciarão. Se nos calamos, será nossa consciência que nos acusará. Em qualquer caso não é tão importante o que os demais pensam, mas nossa fidelidade àquilo em que cremos. Jesus responde com silêncio de seu dedo escrevendo sobre a areia e responde com uma afirmação: “Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: ‘Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra’. E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão”.

Marca que ficam e que vão

O que Jesus escreveria sobre a areia? Nossos próprios pecados? Nunca saberemos o que seus dedos deixaram marcados sobre a areia. Sabemos, isso sim, que logo se apagaria sem deixar marcas. Talvez seja assim que Deus escreve nossos pecados, logo desaparecem da memória, são esquecidos. Escreve e pergunta. Mas, quem pode estar livre de todo pecado? Ninguém. O coração sofre ao pensar no próprio pecado. Todos levamos a ferida da fragilidade e não poderíamos lançar nenhuma pedra. Teríamos que nos retirar envergonhados, comovidos. […]

Deveríamos deter-nos como Jesus e escrever sobre a terra. Sim, escrever nela nossos próprios pecados antes de acusar os outros. Contemplar como em um espelho a debilidade da alma, antes de clamar justiça. Deveríamos assumir que não estamos livres do pecado, antes de exigir reparação pelos pecados de outros. Que fácil é julgar e condenar! […]

Emociona-me esse diálogo de olhares com a mulher pecadora, esse encontro. O perdão nos olhos daquele que não tinha pecado. Jesus olha a mulher que se sente humilhada por seu pecado. Seu olhar a levanta, enquanto outros olhares tratam de oprimi-la. Jesus olha de uma maneira que devolve a dignidade a quem a havia perdido. Olha e escreve na areia. Olha e pergunta, nos pergunta: Estamos livres do pecado? Olha a nós esperando ver luz em nosso olhar. Não, respondemos, nós também pecamos. E quiséramos receber o mesmo olhar. Não queremos nos afastar tristes, queremos receber sua misericórdia, essa misericórdia infinita que nos transborda. Esse olhar que nos ama sem apenas tocar-nos. Deus escreve nossos nomes no céu, onde nada poderá nunca borrá-los, e escreve nosso pecado sobre a areia, porque assim logo será esquecido. É a paz que nos dá dizer nossos pecados a Deus, reconhecer nossa culpa e ficar limpos.

Ou santos ou nada

Hoje em dia nos custa reconhecermo-nos pecadores. Consideramos que estamos bem, que não fazemos nenhum mal. Baixamos uma lista de exigências, para perambular mais tranquilos, para viver sem medo e sem angústia. Não pecamos tanto, somos bons, cremos. Como se para ser santo bastasse ser bom. Não, não é suficiente. É muito, é certo, porque fazer o bem já é muito. Mas ser santo é algo diferente.

Jesus passou fazendo o bem e por isso o mataram. Os santos passaram, como Jesus, fazendo o bem e por isso perderam suas vidas. Agrada-nos fazer o bem e pensar que isso basta. Mas não, é muito mais. Ser santo é perder a vida por amor, sem esperarmos nada. Sem pensar que basta dar apenas um pouco, morrer só um pouco. Trata de estar disposto a morrer no silêncio de um madeiro. Morrer no silêncio do esquecimento. Ser santo é seguir os passos de Cristo pelo caminho do Calvário. Com medo na alma e paz no olhar.

O que Jesus espera de nós, que tanto pecamos? Espera nosso sim, aguarda com respeito nossa resposta. Pe. Kentenich dizia: “Deus não nos presenteia as estrelas, a água, as árvores, os animais? Tudo como um presente para nós. Tudo é caridade da parte de Deus. E o que quer com essa caridade? Quer que a aceitemos. E o Bom Deus não para até receber de nós uma resposta de amor”. Deus nos tem dado tudo, mas se mostra impotente ante nossa resposta. Não pressiona, não força, aguarda. […]

Abrir-se para a graça

Ao ficar só com a pecadora, faz justiça: Jesus se levantou e disse: Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: Eu também não te condeno. Podes ir e de agora em diante não peques mais”. Poucas palavras bastam para mudar uma vida. “Eu não te condeno”. Há algo mais libertador que essa resposta? Algo maior? Não há nada mais belo. Jesus não nos condena. Não condena nossa vida, mas o pecado. Não julga ao homem, só o seu pecado, quer que se converta e viva, que mude de vida e creia. A miséria da mulher é abraçada pela misericórdia de Cristo. É elevada sobre si mesma. Não há condenação que a afunde. Os homens condenam, mas Deus perdoa. Sua alma, que era um deserto cheio de sujeira se converte em um deserto florido.

[…] Brota a vida da terra seca. Surge a vida da escuridão da morte. Um broto verde de uma alma sem vida. Aquele que é salvo volve o olhar a Deus com um coração agradecido. Há paz na alma onde é semeado o perdão. A vida muda, brota algo novo. Começa a caminhar aquele que recebe o perdão. Não é assim a nossa vida cada vez que somos absolvidos? O perdão nos devolve a dignidade perdida, nos faz novas criaturas. O Senhor, olhando-a com misericórdia, lhe disse: “Não peques mais”. A partir de agora não peques e mude de vida. Sabemos que não é possível deixar de pecar, mas sim é possível mudar de vida. Vivemos com pecado, caímos e voltamos a cair. Mas algo muda quando somos perdoados e podemos começar de novo. A conversão é possível quando o coração se abre à graça.

Tradução livre. Versão original disponível em padrecarlospadilla.com