O cheiro do barril
A influência do subconsciente na personalidade.

Padre Nicolás Schwizer

 
 
As impressões guardadas no subconsciente nem sempre ficam ali. Em determinados momentos, afloram para a superfície de nossa consciência e influenciam na personalidade. Isto acontece por duas razões:

Por associação. Em meu subconsciente tenho, por exemplo, ofensas não digeridas que se juntaram durante muitos anos. Se de repente me ofendem de novo ou inclusive o faz a mesma pessoa, meu subconsciente a associa com as ofensas anteriores e tudo junto aflora para a minha consciência e cai como uma montanha sobre mim.

Por sobrecarga. Quando as exigências impostas a minha consciência são muito pesadas, o subconsciente se faz notar menos. Mas, apenas diminua a pressão exercida sobre ela, podem reaparecer com mais força as imagens do subconsciente. É como com um tonel. Mesmo que se agregue água a gotas, nem bem enche, entornará. Isto acontece, por exemplo, em situações de cansaço ou esgotamento.

O subconsciente influencia decisivamente no desenvolvimento e no atuar do homem. Podemos distinguir duas possibilidades de intervenção do subconsciente:

1. A função positiva, integradora. O segredo está nas vinculações afetivas profundas do pai e da mãe. Marcam a criança para toda sua vida, forma em seu subconsciente uma predisposição positiva e uma segurança instintiva. A mãe está formando a vida inconsciente do filho ainda quando está em seu ventre. Assim percebemos quão importantes são as primeiras impressões que recebemos quando crianças.

Explica o Pe. Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt: “Acontece como com um barril. Mantém o cheiro daquilo com que foi cheio primeiro. Assim, as primeiras impressões não podem ser apagadas da alma da pessoa, nem as posteriores. Mas, as primeiras são tão decisivas para toda a vida, porque todas as imagens e impressões seguintes são associadas, relacionadas com as primeiras imagens”.

As primeiras impressões determinam a direção de nossa vida afetiva e a vida subconsciente da alma. E percebemos também quão importante é preservar nossos filhos das impressões nocivas e prejudiciais em sua afetividade e fantasia.

A estas vinculações primárias da criança à mãe e ao pai se soma depois as vinculações aos irmãos e a outras pessoas, como também o apego a lugares e idéias. Assim se forma um organismo de vinculações sadio no qual o ser humano se sente abrigado, protegido e aceito.

2. As impressões negativas. Podem levar a uma desintegração da personalidade humana: são aquelas impressões não elaboradas ou digeridas. São as causas de nossas inibições, complexos, traumas e outras enfermidades neuróticas. Inclusive podem terminar em enfermidades físicas. Há muitas enfermidades corporais devidao a enfermidades da alma.

Temos que dedicar tempo e forças para essa transformação profunda de nossa vida subconsciente. É importante elaborar essas coisas, quando ainda somos jovens. Mais adiante, ao ir perdendo nossa força criadora, o que não recuperamos se transformará num bumerangue que já não poderemos dominar.

Que tipo de experiências não digeridas poderíamos encontrar em nosso interior? Podem ser coisas do tempo de nossa infância: falta de amor ou compreensão, uma contrariedade, experiências sexuais traumáticas. Talvez tenhamos feridas interiores que nos sangram. Ou sofremos decepções e desilusões de parte de outras pessoas. Talvez grandes esperanças nossas tenham frustrado e nos tornamos amargurados. Muitas vezes nos trataram injustamente e por isso nos tornamos vingativos. Ou pode ser que tocaram a minha honra ou de algum familiar e continuo ressentido ou com rancor. Todas estas coisas doem na alma e devem doer. Não somos e nem queremos ser super-homens, que apertam os dentes e engolem tudo convulsivamente. Todas essas impressões geram, ainda, reações. E essas reações são, não poucas vezes, exageradas e desmedidas.

Perguntas para a reflexão

1. Sou consciente que meu filho (a) está "gravando" em seu interior todas as vivências familiares?

2. Como podemos aumentar as vivências afetivas na família?

3. Com que "enchemos o barril"?

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