Advento, tempo de começar de novo!

5 de dezembro de 2015

Pe. Kentenich nos ajuda a refletir sobre o sentido do advento


Parte 1

No Advento a Igreja quer lembrar-nos de que a verdadeira santidade consiste em ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo… Nós, como Família, permanecemos fiéis a este princípio e aspiramos com seriedade ao aprofundamento da vida interior, da vida com Deus, em Deus e para Deus. Mas isto não é fácil!

Todos nós experimentamos muitas vezes as fortes vacilações de nossa vida interior. Quanto podemos falar das inúmeras disposições da alma. Hoje, por exemplo, estamos vibrando de entusiasmo. E amanhã?!… É isto que a Igreja quer nos recordar no tempo do Advento. É como se nos quisesse dizer: todos os que aspiram seriamente no sentido religioso devem também ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo. Precisamos adquirir conceitos claros em relação à vida interior.

“Encontrareis uma criança…”

Conheceis o que disseram os anjos aos pastores? “Encontrareis uma criança…” (Lc 2,12). Estas palavras nos apontam para um grande fim, um grande objetivo para as próximas semanas: uma nova filiação!

Deus se fez homem, nascendo como criança. E nós devemos tornar-nos divinizados pelo caminho do renascimento espiritual e não somente nas quatro semanas do Advento, mas até o fim de nossa vida. Jesus coloca diante de nós, como objetivo de vida: “Se não vos transformardes e não vos tornardes como as criancinhas…” (Mt 18,3).

O que, então, exige Ele de nós? Um novo nascimento! Mas, para isto devemos, antes de tudo, afastar os sentimentos de aversão. Talvez haja quem pense: nós, como jovens, queremos descalçar os sapatos de criança… Mas precisamos distinguir o sentido de duas palavras: ser criança e ser infantil.

Se, no Advento, Jesus exige que nos tornemos crianças no sentido do mistério do Natal, não significa que devemos nos tornar infantis, criançolas diante das pessoas, mas, que perante Deus sejamos verdadeiras crianças, semelhantes a Jesus no presépio. O ser criança ou o ser filial perante Deus possui diversos graus. No primeiro grau, a filialidade é um egoísmo refinado. A gente procura algo, procura-se muito para si mesmo; quer-se experimentar abrigo, ser feliz.

Vista no grau superior, filialidade é dedicação desinteressada de si mesmo, como Jesus no-la pré-viveu. Toda a sua vida foi caracterizada pela atitude filial: o que agrada ao Pai, e não o que agrada a mim… A vontade do Pai é para o Filho a medida de todas as coisas (cf Jo 8, 29). Ao ouvirmos tais considerações acerbas, a palavra “filialidade” recebe novo colorido, perde o aspecto de moleza, de falta de vigor e penetra numa acerbidade vigorosa.

Quanto mais nos abrimos para Deus e as coisas divinas, tanto mais nos fechamos para o mundo. Somente quem é criança consegue estar no meio do mundo e viver desprendido do espírito mundano. Quem pode dedicar um amor profundo, o amor filial, por exemplo, em seu relacionamento com alguma pessoa, aos poucos vai se dar conta que, embora vivendo todos os dias no mesmo local, não está vivendo naquele ambiente – sua alma vive no amor. Portanto, o cerne, a estrela que guia toda a nossa aspiração deveria ser: estar no mundo, mas não ser do mundo; servir ao mundo, porém, com o coração e os sentidos girar em torno de Deus Pai:

“Se não vos tornardes como as crianças…”

“Se não vos tornardes como as crianças…” Que exige Jesus com estas palavras? Um renascimento! Tornar-se criança! Que quer Ele dizer com isto? Perguntemo-nos se realmente há necessidade de tornar-nos criança. Por isso, é conveniente e útil indagar pelos motivos mais profundos.

Nosso principal argumento são as próprias palavras de Jesus. Será que nos recordamos em que situação Ele as pronunciou? Jesus não queria ser um Salvador político e nem econômico. Mas, os apóstolos viviam nesta ilusão. Pensavam que Jesus seria um libertador político, que iria tirar o povo da escravidão. Mas, Ele sempre de novo lhes repetia que estavam enganados. O que eles não acreditavam. Quando o coração se apega a uma idéia, a razão fica emaranhada em suas tramas. Assim foi também com os apóstolos no final da vida pública de Jesus. Ele já lhes havia dito por duas vezes que não queria ser líder político. Mas, ao contrário, não levaria muito tempo e seria perseguido, pregado numa cruz e morreria. É estranho ver que, apesar de Jesus ter-lhes falado tão claramente, eles não o compreenderam. Certa vez, os doze estavam reunidos e começaram a distribuir entre si os cargos e cadeiras de ministros.

Quase poderíamos perguntar aos apóstolos como se explica que eles não acreditavam nas palavras no Mestre. A esta pergunta, talvez, nos respondessem que, há pouco, Jesus se havia transfigurado na presença de alguns deles, no Monte Tabor. E isto viera alimentar mais ainda a esperança de que Jesus faria algo de muito grande por seu povo. E ainda não fazia muito tempo que um deles fora nomeado seu sucessor, isto é, deveria ser o representante de Cristo, na terra. Portanto, o Reino haveria de perdurar por muito tempo…

Compreendemos muito bem esta disposição e atitude dos apóstolos Depois de terem disputado cargos, feito planos para o futuro, voltaram para junto do Mestre. E como Jesus conhece tudo, sabia também de seus planos e os educou. De que maneira? Ele não ralhou, não falou nada sobre o assunto, mas pesou as palavras que pronunciou. Tomou uma criança e colocou-a no meio deles.

Com este gesto Ele quis dizer: Se não vos tornardes como as crianças, não podereis ser nenhum apoio para o meu Reino, nem mesmo podereis ser aceitos no Reino. Um ensinamento que não deixa dúvidas! Expresso não apenas por palavras, mas também pelo material de ilustração que empregou. “Se não vos tornardes como as crianças…”

Portanto, não o inverso de criança. Como eram os apóstolos? Que haviam eles procurado com avidez? Quão apegados estavam a si mesmos! Quão ambiciosos eram! Por isso: se não deixardes estas ideias, se não vencerdes esta predisposição interna…

Se Jesus tivesse dito estas palavras a nós, talvez o teríamos compreendido um pouco melhor. Mas, os apóstolos eram homens. E se queremos conquistar homens, precisamos apresentar-lhes grandes idéias, grandes ideais. Consideremos os grandes homens de Estado e da Igreja. E aqui?! Como isto pode acontecer? Contudo, a palavra foi pronunciada e com clareza extraordinária: é preciso que haja um tornar-se criança de maneira renovada e mais profunda. Jesus é radical em suas exigências aos que o seguem!

Síntese: É preciso que nos tornemos novamente filhos diante de Deus! Crianças pequenas que se deixam conduzir pelo Pai e ajudam a construir o seu reino. O advento é um tempo para recomeçar a sermos novamente crianças pequenas diante de Deus.