A música em Schoenstatt: No ritmo da Aliança de Amor

26 de fevereiro de 2015

“Suas maravilhas queremos cantar”

musicaKaren Bueno / Ir. M. Nilza P. da Silva – “A música é um meio para que o homem possa penetrar no tranquilo ritmo de Deus”, afirma o Pe. José Kentenich. O Fundador de Schoenstatt sempre valorizou a música e incentivou que seus filhos espirituais cantassem. Ele vê nela um meio eficiente de contato com o divino.

“O Pai Fundador sempre deu muita importância para a formação integral e do homem, e sabemos que a música faz parte dessa formação integral”, diz Ir. Sandra Regina Netto, que por 25 anos foi professora de Música no Colégio Mãe de Deus em Londrina/PR.

Como é a música schoenstattiana?

A pergunta não é simples de responder, pois há vários tipos de canções e melodias, mas alguns elementos se cruzam. “A música schoenstattiana, como diz o nosso Pai, deve ter conteúdo, e de preferência que fale da espiritualidade de Schoenstatt. Pode ser uma música alegre, de meditação ou litúrgica, mas que tenha um conteúdo e uma estrutura, que leve uma mensagem – da Aliança de Amor, da Mãe, do Pai”, afirma Ir. M. Sandra Regina.

A compositora Fátima Gabrielli, da União de Mães de Schoenstatt, já criou várias músicas para a Obra, inclusive a ‘Consagração a Nossa Senhora’, cantada por católicos do Brasil inteiro. Para ela, “a melodia schoenstattiana tende a ser um pouco mais tranquila”. Contudo, ela reconhece que esta não é uma regra.

Fátima ressalta a espiritualidade que há nas letras: “Elas têm um aspecto mais mariano. A nossa espiritualidade fala de Nossa Senhora de uma maneira diferente, não somente de Maria como um ícone, um ser superior impossível de imitar, mas como um espelho. Em Schoenstatt as músicas tem que trazer um estímulo para que as pessoas se tornem pequenas ‘Marias’. Essa imitação é o grande diferencial do Movimento, nós não queremos uma Nossa Senhora para alcançar milagres, mas para colaborar e ser educados por ela”.

Carolina Montedori é vocacionada do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt (em Atibaia/SP) e formada em Música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com menos tempo de participação no Movimento Apostólico, mas com um olhar profissional sobre o tema, aponta algumas coisas que observou na música schoenstattiana: “A característica principal é o caráter de entrega, parece que quem escreve tem o desejo de se entregar totalmente, o que é algo próprio da espiritualidade. A filialidade aparece em muitas músicas também, ser filho e ser pequeno”.

Ela fala de algumas diferenças que observou nos ramos do Movimento: “As músicas da Juventude Feminina, sua harmonia, se assemelham carolao que a gente conhece como popular. As meninas se reúnem e cantam juntas, mas se quiserem cantar sozinhas também podem, a música soa da mesma forma. Já as canções das Irmãs têm um caráter mais de coro, um estilo que pede unidade, a música delas tem um sentido mais profundo quando cantada com todo mundo junto, em comunidade”. E acrescenta: “Conheço algumas músicas da Juventude Masculina, eles têm um estilo bem diferente da Jufem. A música também é popular, mas tem um acento mais heroico, o que eles tocam e cantam lembra a guerra, a luta, a coragem de morrer pela causa. Já as músicas das Mães vão ao encontro da vocação maternal delas”.

De todas as características próprias dos ramos e comunidades da Obra, para Carol, a unidade está na entrega: “É muito próprio de Schoenstatt a Aliança de Amor, a consagração. Conheço várias canções católica e realmente as músicas do Movimento são diferentes, dá para notar nesse sentido de conteúdo”.

Essencial para a vida

Ir. M. Sandra Regina recorda que desde o ventre a criança já está em contato constante com os sons e ritmos: do coração, do pulmão, do organismo da mãe; também os sons exteriores que influenciam o desenvolvimento do bebê. “A música tem poder sobre a pessoa, de tranquilizar, de trazer uma nova perspectiva e uma nova esperança. Se traz uma letra religiosa, pode mudar a vida da pessoa, mudar o destino de quem a escuta, introduzindo uma nova ideia para alma dela”, coloca Fátima Gabrielli.

As melodias schoenstattianas trazem benefícios para aqueles que pertencem à Obra, como explica Carolina: “A música ajuda as pessoas que são do Movimento a se inserirem ainda mais naquilo que estão vivendo, porque tem essa função de ajudar a viver melhor a religião, a espiritualidade”. E também àqueles que não participam da Obra de Schoenstatt: “As pessoas que gostam de ouvir músicas católicas em geral, mas que não são do Movimento, com os cânticos de Schoenstatt se encontram primeiro com Nossa Senhora, já que o caráter mariano é algo muito forte nas musicas da Obra. Elas podem ser um conforto, um consolo, ajudam as pessoas a se aproximarem de Maria com confiança e entrega”.

Na história: canções de liberdadefatima

Na história de Schoenstatt a música tem um papel essencial em momentos de dificuldade.

Quando o Pe. Kentenich foi preso pela policia nazista, inicialmente ficou fechado em uma cela solitária no porão de um antigo banco. Os cofres do banco foram utilizados como celas e, como tais, eram muito escuras e úmidas, com um mínimo de ventilação. As celas eram tão pequenas (1,5 m²) que as pessoas não podiam ficar totalmente em pé e era difícil ficarem abaixadas ou sentadas no solo úmido. O Fundador permaneceu ali por quatro semanas e ouvia gritos e grunhidos de desespero.

“Comecei a cantar todos os cânticos que conhecia. Lamentei realmente não conhecer, de vários, mais do que algumas estrofes[1]”, disse o Pe. Kentenich mais tarde. As canções, nessa ocasião, eram um alívio para sua alma, mas também uma tentativa de acalmar e dar esperança aos outros prisioneiros que gritavam desesperados. “Ele cantava as músicas de Schoenstatt porque elas têm um mundo atrás de si. Mais tarde ele disse às Irmãs que aprendessem todos os cânticos e todas as estrofes, porque numa ocasião de perigo eles poderiam ajudá-las a levar aquele mundo consigo, por isso é importante decorarmos o que for possível”, diz Ir. M. Sandra Regina.

Também no campo de concentração de Dachau/Alemanha a música ajudava o Fundador a estar em contato constante com o “mundo de Schoenstatt”. Ir. M. Sandra Regina recorda ainda testemunhos de outros schoenstattianos que passaram pela prisão durante o nazismo. Algumas Irmãs de Maria da antiga Tchecoslováquia foram presas com outras prisioneiras num local escuro e, assustadas com o que poderia acontecer-lhes, começaram a cantar o hino internacional da Obra; depois que tudo passou, muitas pessoas vieram lhes perguntar sobre a música e tudo que havia por detrás da letra.

Na história: alegria e gratidão

Desde o início da Obra a música expressou a alegria pelo amor de Deus e a gratidão por tudo o que dele se recebe. O hino da Família, “Ó Virgem Protetora”, surgiu em 1939, como gratidão pelos 25 anos da Obra. Na mesma ocasião, nasce o Hino de Coroação, no Santuário Original, “Do céu, és Soberana”. O Fundador compôs a letra para vários cantos. Há músicas schoenstattianas que marcam épocas, como exemplo, “Ele amou a Maria”, composto para o centenário do Fundador e cantado até hoje. Como não citar o hino jubilar do  centenário da Obra, “Suba ao céu o louvor filial…” entoado com todo o entusiasmo por mais de 50 nações no ano passado. Compositores do Brasil também contribuem com o acervo musical da Obra de Schoenstatt em todo o mundo.

No ritmo da Aliança de Amor,  seguindo os compassos da Divina Providência, continuemos a entoar um Canto Novo, unido ao canto de Maria, a grande autora de um dos mais belos cantos, o Magnificat.

[1] Novena Livre em Algemas, pág. 4