A lepra desapareceu e ele ficou curado

15 de fevereiro de 2015

Homilia do 6º Domingo do Tempo Comum

eucaristiaPe. Carlos Padilla – Jesus via os homens perdidos como ovelhas sem pastor, cheios de medo. Recordo, faz pouco tempo, no sul do Chile, como se comportava um rebanho de ovelhas. Iam de um lado a outro correndo desorientadas quando alguém se aproximava delas. Seguiam com medo a primeira que se movia. O medo e a falta de rumo se refletiam em suas corridas, buscando um lugar para escapar da minha presença. A pesar de nada amenizar suas vidas, elas corriam desorientadas.

Jesus segue vendo-nos perdidos e sem rumo e nos olha com compaixão. Porque Jesus sempre se compadece do que sofre, dos enfermos, dos leprosos, daqueles que mais necessitam de sua misericórdia – se comove e se aproxima, toca com suas mãos poderosas e nos cura. Seu poder torna a nos surpreender hoje. Ao tocar-nos com suas mãos, nos liberta. Afasta-nos do medo e nos devolve a vida perdida.

Lia, ainda há pouco, uma reflexão sobre os medos: “Havia descoberto que a maioria dos meus medos não é senão uma criação de minha mente. A realidade adota, às vezes, a forma de um dragão assustador que se desvanece enquanto nos atrevemos a olhá-lo de frente”. Os medos nos fazem correr de um lado a outro inquietos, nos levam a esconder-nos. Nos fazem ocultar-nos atrás de uma barreira e nos incapacitam para atuar. Mas quando os enfrentamos, quando os olhamos cara a cara, os vencemos e já não nos bloqueiam. Que medos pesam hoje em nosso coração? Que medos nos fazem viver isolados em nossa solidão?

Hoje São Paulo nos convida a ser coerentes e fiéis em nossas ações, seguindo a ele, que segue, por sua vez, a Cristo. Mas em vez de seguir Jesus, acabamos seguindo a outros que não seguem o Senhor; porque, em definitiva, todos seguimos a alguém. Por isso as palavras de São Paulo nos tocam de maneira especial: “Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não escandalizeis ninguém, nem judeus, nem gregos, nem a Igreja de Deus. Fazei como eu, que procuro agradar a todos, em tudo, não buscando o que é vantajoso para mim mesmo, mas o que é vantajoso para todos, a fim de que sejam salvos. Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo” (1 Cor 10, 3 1 – 11, 1).

Pede-nos que tudo o que façamos seja para a glória de Deus. Essas palavras ressoam com força em nossos corações. Fazer as coisas por Deus, só por ele, é o que nos agrada. Muitas vezes fazemos as coisas por nós mesmos, por nossos próprios interesses, para que os demais estejam contentes, para sentirmo-nos melhores, para que a vida nos aplauda. Sabemos que fazer as coisas para glória de Deus é o principal, mas nos esquecemos. E agimos movidos pelo egoísmo, fazendo-nos mais pobres e pequenos.

São Paulo, além disso, não só quer que façamos as coisas para a glória de Deus, mas nos pede que não escandalizemos. O escândalo sucede quando nossos atos não correspondem com a verdade que proclamamos. É tão fácil escandalizar. Quando falamos da fidelidade e não somos fiéis, quando ocultamos a verdade e mentimos, quando dizemos amar com todo o coração e nos deixamos levar por paixões passageiras, quando dizemos que Deus governa nossa vida e logo tomamos decisões sozinhos, sem falar com ele.

Necessitamos exemplos vivos como o de Paulo que nos recorda que seguimos a Cristo – pessoas apaixonada pelo Senhor, que sempre seguem seus passos. Quando vemos outros seguindo Cristo com fidelidade, esse seguimento nos incendeia e nos leva a deixar tudo e seguir seu caminho. Nós mesmos somos chamados a ser testemunhas de um amor maior, a viver de tal maneira que os outros possam ver Deus em nós e mudar de vida.

Deixar-se curar

Pensava na lepra que condenava os que a sofriam a mais terrível solidão. A lepra, em Israel, era uma enfermidade maldita que afastava de seu povo os que a sofriam: “O Senhor falou a Moisés e Aarão, dizendo: ‘Quando alguém tiver na pele do seu corpo alguma inflamação, erupção ou mancha branca, com aparência do mal da lepra, será levado ao sacerdote Aarão, ou a um dos seus filhos sacerdotes. Se o homem estiver leproso é impuro, e como tal o sacerdote o deve declarar. O homem atingido por este mal andará com as vestes rasgadas, os cabelos em desordem e a barba coberta, gritando: ‘Impuro! Impuro!’ Durante todo o tempo em que estiver leproso será impuro; e, sendo impuro, deve ficar isolado e morar fora do acampamento’” (Lev 13, 1-2. 44-46).

O leproso se convertia então, sem culpa alguma, em um marginalizado, em um homem não desejado, que não podia seguir vivendo com os outros, porque estava estigmatizado. O perigo de contágio os convertia em homens impuros. Tinham a obrigação de chamar a atenção com uma capa, para avisar do perigo de sua doença. Seu mal os afastava, os fazia impuros. Sua impureza se convertia em um sinal visível para todos os que se aproximavam.

Penso que hoje essa lepra são as enfermidades que atacam nosso corpo e podem nos fazer malditos para o mundo, estigmatizados. Mas a lepra também pode ser nosso pecado, os atos que realizamos e que muitos não concordam. Pode vir também a lepra quando fracassamos e não chegamos às metas sonhadas. Dessa forma o mundo nos reclui num vagão dos perdedores, no grupo daqueles que não são famosos nem são procurados. Deixam de admirar-nos e passamos a despertar compaixão. Somos parte daqueles que já não seguem nada. É tão fácil perder a fama. Uma crítica, um comentário, um fracasso, podem manchar a honra e o nome rapidamente e para sempre. É tudo muito delicado. É fácil falar mal dos outros, inclusive mentir sobre eles. Nós caímos também nesse jogo da crítica sem medir as consequências. Atacamos com palavras a muitos que consideramos inferiores. Os rodeamos de uma fama negativa que os isola e os converte em leprosos, de quem ninguém se aproxima.

A lepra, a enfermidade, também o pecado podem deteriorar nosso aspecto e forçar-nos ao isolamento. Nosso pecado pode chegar a isolar-nos quando não somos humildes para nos reconhecermos pequenos e pecadores. Converte-se em uma sepultura e pode afastar-nos daqueles que querem nossa salvação. Quantas pessoas hoje, ao sentirem-se julgadas por seus pecados, se retiram e afastam-se da comunidade cristã porque sentem sua condenação. Porque o pecado faz-nos sentir depreciáveis e indignos de perdão, porque não encontramos uma saída, porque nós mesmo não nos perdoamos.

Podemos fazer nossas as palavras do protagonista do filme A Árvore da Vida: “Quis que me quisessem porque era alguém importante, um grande homem. Mas sou um nada. Eu vivia no pecado. Tudo me sujava e eu não percebia a glória. Sou um homem estúpido”. Na estupidez do pecado nos afastamos dos demais. Porque não aceitamos nossa realidade, nossa condição de pecadores e nos surpreendem as paixões do coração, como lia há pouco: “O sonho, o desejo, a vaidade, a ira, a idolatria, a inveja, a vingança, todas as paixões, aninham na noite da alma humana, sempre em uma emboscada”.

Nosso pecado nos converte em leprosos para o mundo, nos deixamos levar e nos afastamos. Mas a Igreja quer nosso perdão e misericórdia e nos busca. Nosso próprio pecado desperta no coração o desejo do perdão. Escutamos no Salmo: “Tu és meu refúgio, me rodeias com cantos de libertação. Feliz o homem que foi perdoado e cuja falta já foi encoberta! Feliz o homem a quem o Senhor não olha mais como sendo culpado, e em cuja alma não há falsidade! Eu confessei, afinal, meu pecado, e minha falta vos fiz conhecer. Disse: ‘Eu irei confessar meu pecado!’ E perdoastes, Senhor, minha falta. Regozijai-vos, ó justos, em Deus, e no Senhor exultai de alegria! Corações retos, cantai jubilosos!”

É um confrontamento com a própria verdade que nos salva, a confissão de nossa culpa. De nada nos serve ocultar-nos e esconder nosso próprio pecado e debilidade. Outro dia lia sobre essa necessidade do coração: “Mas, sejamos honestos, todos somos especialistas em esconder-nos. Mete-mo-nos em furos inimagináveis para ocultar-nos, até debaixo da bandeira da sinceridade”. É necessário ser sincero com nosso pecado e pequenez, saindo de nosso esconderijo.

Quando assumimos que temos lepra e aceitamos o pecado que nos tira a beleza interior, iniciamos o caminho de regresso ao Pai. Nessa experiência de solidão e abandono nos reconhecemos pequenos; na dor do pecado, que nos faz sentir-nos amados, rechaçados e indignos, está o caminho de retorno. É o caminho de humildade, da atitude daquele que suplica ser curado ao aceitar sua realidade de leproso, como vemos hoje no evangelho.

Necessitamos ser mais humildes. A atitude de súplica e de humildade do leproso é um testemunho. Em sua humildade, deixa que Deus o cure, permite a Deus entrar em sua vida, abre suas portas: “Naquele tempo um leproso chegou perto de Jesus, e de joelhos pediu: ‘Se queres tens o poder de curar-me’”. O primeiro passo é deixar que Deus se aproxime de nós: “Senhor, tu podes, te permito que entres”, é o grito do leproso. Muitas vezes não queremos estar limpos, gostamos da desordem de nossa vida, e afastamos a Deus, separando-nos dele. Acostumamos-nos ao barro, ao comodismo, à sociedade que nos rodeia e não queremos viver limpos. Temos saudades de nossas correntes pregadas ao corpo e à sociedade do barro. Dar permissão a Deus para que atue em nós é um ato de liberdade, um salto de confiança.

Deixemos que entre, que mude e modifique toda nossa desordem, deixemos que sua graça faça milagres. Isso não é tão evidente porque com frequência lhe colocamos limites. O leproso tem que querer ser curado. São Beda disse: “É de admirar, ao mesmo tempo, que lhe curou do mesmo modo como este lhe havia pedido: ‘se tu queres, disse o leproso, podes curar-me’. ‘Quero’, contestou Cristo, eis aqui a vontade. ‘Seja curado’, eis aqui o afeto da piedade”. Jesus aceita o convite do leproso. Quer curar e o cura. Precisa da fé do enfermo, suas portas abertas, seu desejo de voltar à vida.